terça-feira, 16 de junho de 2020

Se alguém chegar aqui pelo menos pode me entender um pouco

Não escrevo isso para ninguém exatamente, talvez para mim mesmo no futuro. Existe memórias, mas existem momentos de completo repúdio ao passado. Queria me lembrar mais de tudo o que era bonito e importante, mas é mais fácil perder tudo do que manter um arquivo realmente. As vezes encontro uma foto da minha avó quando ela ainda andava e quando ainda tinha consciência, mas hoje em dia está apenas sendo mantida viva porque mesmo que biologicamente não esteja pronta para morrer, de que adianta acordar poucos minutos e voltar a inanição do alzheimer? Quando falam do alzheimer é um pouco difícil de entender. Eu nunca entendi. Continuo sem entender. É muito difícil lidar com alguém que continua vivo, mas não existe mais. Vai se perdendo aos poucos. Uma hora para até de falar. É um processo tão gradual que você não percebe o tempo que perdeu. Um dia você se dá conta que não tem mais volta. É pior do que a morte, porque a morte é como se fosse o golpe final de uma série de mortes mais calmas. Ela tem 94 anos. Talvez 96... Não merecia morrer assim. Morreu agora em meio a pandemia. Dizem que morreu. Eu sou ateu, mas as vezes acho que talvez exista sim alguma força, algum Deus, a imagem é o que menos importa. Lembro de uma época que eu não tinha para onde ir, e uma das minhas namoradas quis se casar comigo, porque me amava, eu era a saída para todos os problemas dela, mas era tão assustador não ter controle nenhum para aquela situação. Eu gostava dela, do flerte inicial, de estar conhecendo alguém que eu poderia conversar, era até um alívio, mas eu não queria casar. Nem manter uma relação com mulher alguma. Não naquele momento. Pra piorar eu tinha certeza que ela estava possuída pelo capeta. Tive certeza. Não que ela não fosse uma pessoa legal ou interessante, mas acho que algo ali me fez alucinar ou escutar vozes. Lembro que rezei perguntando para mim mesmo ou para Deus, para a força invisível, se aquele era mesmo o caminho que eu deveria trilhar naquele momento, e intimamente eu sabia que não, porque não a amava eternamente, gostava sim, mas não era amor, não queria me casar, não queria a responsabilidade de uma relação séria jogada no meu colo, não queria depender de mulher nenhuma, mais uma vez, outra vez, mais uma de muitas vezes, mas a prova foi quando eu tive dúvidas de minha sanidade e escutei ela falar como o demônio, era uma outra voz, me respondia perguntas, debochava do que eu sabia até o momento. Foi o momento que eu decidi partir. Também não queria ser boneco sexual de ninguém. Fui embora, com o outro, o ex dela. Foi a mesma coisa ou pior. Foi pior. Hoje eu não acho que eu gostasse dele. Achei em algum momento, mas a sério não. O que faz de mim uma pessoa muito ruim, porque eu desprezava ele, no fundo achava um bosta. O que faz de mim um hipócrita. Eu não sei se ele chegou a gostar de mim, acho que era uma coisa de posse, ele me trazia para perto, mas na época eu estava sim envolvido com outras pessoas e posso ter sido sim uma pessoa muito ruim, do tipo de parecer gostar, mas sair com outro cara bem mais bonito ou ficar com alguma amiga e ignorar ele por semanas, e isso me faz hipocrita também, porque eu nao gosto de estar com mulheres, as vezes sinto falta de algumas e por outro lado prefiro homens, mas desprezo intimamente a todos, a unica vez que me apaixonei e quis me casar realmente com um homem, o mesmo fugiu de mim, assim como eu fugi daquela mulher que fez uma casinha pra mim e que por algum motivo eu sei que estava sim possuída pelo próprio deus do submundo, sobre o rapaz que eu fugi para escapar dele, não acho que o mesmo gostasse de mim, ele também nunca se importou, acho que eu poderia ter me poupado do tempo que perdi com ele. Não me acrescentou muitas coisas, por outro lado piorou minha auto-imagem, pela hipocrisia que foi ter que aguenta-lo. Aceitação é parte do processo, espero me construir melhor das próximas vezes. Voltando, sobre Deus, eu sou ateu, mas acho sim que talvez exista alguma coisa, as vezes acredito que existe algo, é difícil acreditar depois do nazismo, é difícil acreditar com nossas fábricas, com o nosso gosto por sangue animal, mas as vezes acontecem essas provas de que existe algo mais, por outro lado ver que uma pessoa que era boa, tranquila, calma, uma pessoa que já tinha sofrido tanto na vida acabar com alzheimer é um pouco cruel demais, ainda mais no meio de uma pandemia. 96 anos. Eu choro se eu vejo fotos com ela quando ela ainda andava e era consciente. Ela gostava de mim. Agora nem posso visita-la, por causa da doença mundial, desse vírus maldito. Para os médicos é hora de partir, mas por mim que ela se recuperasse mesmo, como um milagre, voltasse a andar, se lembrava de quem ela é, respondesse perguntas. Falam que acontecem milhares de milagres todos os dias, que os milagres são pequenos detalhes que não percebemos e com certeza, mas o milagre de ter conhecido aquela pessoa maravilhosa no passado não se compara a tragédia que é ver esse final e só lembrar de certos momentos ao encontrar uma foto perdida ao acaso. As lembranças morrem mais rápido do que as coisas. Eu pessoalmente não quero que a lembrança seja a última vez que a vi, antes disso tudo. Todos os anos antes de viajar eu sabia que talvez fosse a última vez que a encontraria em vida, mas não esperava uma situação em que ela ainda está viva, mas não posso visita-la, não posso encontrar com ela, e talvez dessa vez seja mesmo o final. Espero sim por Deus, existe essa esperança cega lá no fundo de que as coisas poderiam voltar a ser o que eram antes, mas sinceramente nem a casa se parece mais com a casa que existia na minha infância. A tsuki, a cachorrinha morreu de idade por esses tempos, praticamente durante o internamento da minha avó...  As coincidências precisam também serem cruéis? Eu não entendo porque essas mudanças exigem tantos sacrifícios. A minha última viagem me trouxe muitos ganhos emocionais, amadurecimento, por outro lado me custaram um ano perdido que poderia ter aproveitado ao lado da minha avó, mas em quais condições seria esse tempo? Melhor viver um ano longe, ignorando tudo, do que acompanhar uma pessoa definhar aos poucos. Isso é o Alzheimer. É bem cruel. Ela merecia lucidez e morrer um dia dormindo, não inconsciente com breves períodos de lucidez e lucidez essa que não existe mais controle sobre o próprio corpo. A psoríase, uma doença de pele que eu tenho, pele e articulação, ela aparece ou piora as vezes, é um pouco isso. Um dia meu dedo começou a doer muito, independente do remédio que eu tomasse. Hoje tenho dedos tortos. A articulação inflama, depois calcifica e pronto, alterou o formato das mãos, dos pés. É horrível. Acontece do nada, não existe controle algum. Hoje não sinto mais dor alguma nas articulações, mas toda vez que sinto alguma dor tenho medo de entortar ainda mais e acabar com as juntas travadas como daqueles idosos: eu ainda não sou idoso, mas ainda assim sofro com uma situação que não tenho controle algum. E é muito cruel não ter controle algum. Confiar cegamente. Um dedo da mão e dois dedos dos pés tiveram essa psoríase articular. Ficaram levemente tortos depois de semanas de dor intensa e inflamação interna. Não chega a ser como daqueles idosos que tiveram gota, mas é parecido. Muita gente não percebe esses detalhes, tem gente que acha que a vida é fácil para todos os outros, mas queria saber quantos aguentariam tudo o que passo ou já passei, por outro lado a vida é realmente um grande sofrimento para todos os que tem consciência e o progresso para a morte é o caminho de todos nós, por outro lado é assustador assistir o próprio corpo definhar, ano após ano.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

A Lenda de Keret - Mito caanita / babilônico da antiga cidade perdida de Ugarit

O rei Keret, de Hubur (ou Khuburu), apesar de ter a reputação de ser filho do próprio grande Deus El, foi atingido por muitos infortúnios. Embora Keret tivesse sete esposas, todos elas morreram no parto ou de várias doenças ou o abandonaram, e Keret não teve filhos sobreviventes. Enquanto sua mãe teve oito filhos, Keret foi o único a sobreviver e ele não teve membros da família para sucedê-lo e viu sua dinastia em ruínas.
Keret rezou e lamentou sua situação. Enquanto dormia, o deus El apareceu a Keret, que lhe implorou por um herdeiro. El disse a Keret que ele deveria fazer guerra contra o reino de Udum e exigir que a filha do rei Pubala de Udum lhe fosse dada como esposa, recusando ofertas de prata e ouro como preço da paz.
Keret seguiu o conselho de El e partiu para Udum com um grande exército. Ao longo do caminho, ele parou em um santuário de Athirat / Asherah, a deusa do mar, e rezou para ela, prometendo dar-lhe uma grande homenagem em ouro e prata, se sua missão tivesse êxito.
Keret então sitiou Udum e, finalmente, prevaleceu e forçou o rei Pubala a dar sua filha (em algumas traduções, neta), Hariya, a Keret em casamento. Keret e Hariya foram casados ​​e ela lhe deu dois filhos e seis filhas. No entanto, Keret renegou sua promessa à deusa mãe do mar Athirat de lhe prestar um tributo de ouro e prata após seu casamento.
[Nesse ponto, há uma interrupção na história devido a danos nas tábuas-texto]. Quando a história recomeça, os filhos de Keret cresceram.

A deusa Athirat ficou brava com a promessa quebrada de Keret e o atingiu com uma doença mortal. A família de Keret chorou e orou por ele. Seu filho mais novo, Elhu, reclamou que um homem, que se dizia ser filho do grande deus El, não deveria morrer. Keret pediu apenas que sua filha Tatmanat, cuja devoção era a mais forte, orasse aos deuses por ele. Enquanto Tatmanat orava e lamentava, a terra primeiro ficou seca e árida por muitos anos, mas acabou sendo regada por uma grande chuva.
Na época, os deuses estavam debatendo o destino de Keret. Ao saber da promessa quebrada de Keret para Athirat, El ficou do lado de Keret e disse que o voto de Keret era irracional e que Keret não deveria ter cumprido. El então perguntou se algum dos outros deuses poderia curar Keret, mas nenhum estava disposto a fazê-lo. Então El realizou alguma mágica divina e criou uma mulher alada, Shatiqtu, com o poder de curar Keret. Shatiqtu esfriou a febre de Keret e curou-o de sua doença. Em dois dias, Keret se recuperou e retomou seu trono.
Então Yassub, o filho mais velho de Keret, se aproximou de Keret e o acusou de ser preguiçoso e indigno do trono e exigiu que Keret abdicasse. Keret ficou zangado e lançou uma terrível maldição sobre Yassub, pedindo a Horonu, o mestre dos demônios, para esmagar o crânio de Yassub.
Nesse ponto, a história termina e o final do texto parece estar faltando. Embora o fim da lenda seja desconhecido, muitos estudiosos assumem que depois Keret perdeu todos os seus filhos, exceto uma filha, que se tornou sua única herdeira.

Épico de Aqhat (O conto de Aqhat) - Lenda caanita da cidade perdida de Ugarit

Danel é descrito como um "governante justo" (Davies) ou "provavelmente um rei" (Curtis), fornecendo justiça a viúvas e órfãos. Danel começa a história sem um filho, embora a falta de material desde o início da história não torne claro se Danel perdeu filhos ou se ele simplesmente ainda não teve um filho. Em seis dias sucessivos, Danel faz oferendas em um templo, solicitando um filho. No dia sétimo, o Deus Baal pede ao Deus supremo El que forneça a Danel um filho, com o qual El concorda.
As orações de Danel aos deuses são respondidas com o nascimento de Aqhat. O agradecido Danel realiza um banquete para o qual convidou o Kotharat, grupo divindades femininas associadas à gravidez comuns aos Caanitas.
Uma lacuna aparece no texto. Depois disso, Danel recebe uma reverência do deus Kothar-wa-Khasis, que é grato a Danel por lhe proporcionar hospitalidade. De acordo com Fontenrose, a Danel é dado um arco quando Aqhat ainda é um "bebê", enquanto Wright lê a história depois que Aqhat "cresceu".
Depois de uma parte faltante do texto, a história recomeça como Aqhat, descrito por Louden como "agora um jovem rapaz", está comemorando um banquete no qual várias entidades estão presentes.
Aqhat, que agora tem o arco, presente de infância de seu pai, é oferecida uma recompensa pela Deusa Anath se ele o der a ela. Anath oferece Aqhat primeiro ouro e prata, mas ele recusa. Ela então oferece a imortalidade, mas ele se recusa novamente. Ao fazer suas ofertas, ela usa uma linguagem que provavelmente implica uma oferta de natureza sexual também. A recusa dele é desrespeitosa: ele diz a ela para ir buscar um arco com Kothar-wa-Hasis e diz que uma mulher não tem que fazer negócios com essas armas. Ele insiste que a imortalidade é impossível: todos os humanos devem morrer. Anath, indignada, sai para falar com o Deus supremo El.
Anath reclama com El, de acordo com Wright "aparentemente recebendo sua permissão para punir Aqhat" pela forma desrespeitosa de usa recusa. A resposta inicial de El, se ele der uma, não é legível devido à natureza danificada do tablet, mas o tom de Anath passa de um inicial em respeito polido para terríveis ameaças violentas contra o próprio El. Relutantemente, chantageado, El concede a Anath licença para fazer o que ela deseja.
Anath então mata Aqhat. O personagem que mata pessoalmente Aqhat é Yatpan, descrito por Vrezen e Van der Woude como "um dos guerreiros de Anath", mas por Pitard simplesmente como "um de seus devotos". Yatpan, magicamente transformado em uma águia, ataca Aqhat e o mata.

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Aqhat morre, e Anath se desespera, expressando arrependimento por sua morte. Embora o texto neste momento seja fragmentário, isso indica que seu arco foi quebrado no incidente e Anath também expressa sua angústia pela perda do arco cobiçado, em termos ainda mais fortes. Ela também lamenta que, devido ao assassinato, as colheitas em breve começarão a falhar.
Enquanto isso, Danel, que não percebe que seu filho está morto, continua cumprindo seus deveres judiciais no centro da cidade. Sua filha Paghat percebe que uma seca começou e que aves de rapina estão circulando em sua casa. Ela sente uma profunda tristeza.
Nesse ponto, o texto contém uma linguagem sobre as roupas de Danel sendo rasgadas, indicando que Paghat rasgou as roupas de Danel ou que Danel rasgou suas próprias roupas de luto pela seca. O texto faz Danel rezar pela chuva, seguido por várias linhas sobre uma seca que durou sete anos (o que é difícil de interpretar porque as tábuas estão danificadas). Danel vai para os campos, expressando seus desejos de que as lavouras cresçam e expressando esperança de que seu filho Aqhat retorne e faça a grande colheita, indicando que ele ainda não percebe que Aqhat morreu.
Nesse ponto, dois jovens aparecem e informam a Danel e Paghat que Aqhat foi morto pela Deusa Anath. Vendo abutres no alto, Danel chama Baal, pedindo a Baal que derrube os abutres, para que ele possa abri-los e procurar os restos mortais de seu filho. Baal obedece, mas Danel não encontra partes do corpo de seu filho. Danel vê o pai dos abutres, e Baal novamente leva o pai dos abutres para inspeção. Novamente, não há restos encontrados. Finalmente, Danel pede a Baal que derrube a mãe dos abutres, na qual ele encontra ossos e gordura de Aqhat. Danel enterra os restos que encontrou ao longo das margens do mar da Galiléia.

A morte injusta de Aqhat faz com que ocorra uma seca de anos. A irmã de Aqhat, Paghat, decide se vingar matando o guerreiro Yatpan.

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terça-feira, 9 de junho de 2020

A república - 06/06/2020

Não tinha mais para onde ir e precisava alugar logo um espaço em algum pensionato qualquer. Como tinha pouco dinheiro não tive muitas opções de escolha e acabei procurando um lugar que concentrasse um custo menor com um maior número de benefícios. Achei um anúncio e fui dar uma olhada. A casa era interessante, se tratava de uma casa grande, com vários quartos, espaço de convívio central e uma segunda casa ou casa dos fundos, separada por dois longos corredores laterais, era como se fosse um oito (8), ou um H, levei alguns itens pessoais, algumas malas, um pouco desgastante o trajeto, as malas todas pesadas, fui direto para o pequeno quarto dos fundos, que não tinha uma chave. Quem me recebeu foi um rapaz que parecia bem legal a primeira vista, e haviam outros moradores que acabaria por conhecer ao longo do tempo ali. Era uma república aberta as diferenças e sem muitos julgamentos. Logo de início me identifiquei com o Bruno, ele era alto e até um pouco padronizado, porte atlético, boa aparência. Com o passar dos dias chegou um novo morador, e assim como eu, este novo morador preferia não socializar muito e eu não encontrava muito com ele, porque afinal meu quarto ficava na casa dos fundos, então os encontros eram esporádicos na sala de convivência central, mas muitas vezes eu permanecia no meu quarto de qualquer maneira. Esse novo morador a qual vou chamar de Marcos em poucos dias mudou de comportamento e começou a trazer alguns amigos para o convívio geral, tocava músicas, muita bebida, algumas festas. A maior parte das pessoas que frequentavam eram gays ou bissexuais, acho que apenas dois moradores da república eram heterossexuais e uma única mulher grávida morou também por um tempo nessa casa, mas coisa de três dias depois de minha mudança eles se mudaram. Com o passar dos dias Marcos fez mais uma das costumeiras festas e depois disso duas pessoas ficaram morando no quarto dele ou pelo menos não pareciam ir embora. Uma delas ele apresentou como o namorado dele e a outra era um amigo. O namorado dele era um pouco calado, mas muito atraente, tinha alguma fixação com os outros homens da casa e me chamava sempre pra um cigarro e conversar. Vou chama-lo de Johnny.  O amigo era mais afeminado, mas ainda assim um homem, com um penteado mais chamativo e toda aquela postura mais territorial, fixando sempre a atenção para si, falava alto, realmente agia como um pavão, apesar de se dizer mais próximo das mulheres ou tentar alguma amizade com as mulheres da casa ou amigas dos outros rapazes, o nome dele era Lu. Tudo isso aconteceu em menos de um mês, duas semanas, foi uma questão de dias. Havia um cachorro nos fundos, que era bem grande e pertencia ao pessoal que era responsável pelas contas dessa República. Esse cachorro era bem bonzinho, mas sempre parecia meio frio, também não me lembro muito bem da ração, mas era um pote que sempre estava vazio, as vezes eu colocava alguma coisa ou ele lambia algo no chão, mas não era um cachorro com calor. Alguns objetos da casa começaram a desaparecer, mas nada de importante, até que um dia cheguei no meu quarto e encontrei o namorado do Marcos dormindo lá mesmo, na minha cama. Fui falar com ele e ele disse que havia brigado com o Marcos e que agora o Marcos estava na Sala com uma faca, disse que eles tinham bebido muito e acabaram discutindo. Pedi que ele saísse, mas o Johnny pediu para ficar ali. Fui na sala central da casa da frente entender a situação, um pouco contrariado por ter sido envolvido em problemas desnecessários, mas chegando lá não encontrei o Marcos. Lu apareceu falando que eu tinha que ir embora e me deu um tapa muito forte. Começou a me ameaçar, dizer que ia chamar a polícia, que sabia o que eu tinha feito e eram acusações sem sentido, mas ele estava realmente muito irritado comigo. Tenho pra mim que ele era apaixonado pelo Johnny. Eu disse que eu não iria embora, porque já tinha pago o mês e só iria receber em alguns dias e ele nem mesmo era morador para dizer o que eu deveria fazer ou não. Nesse momento Marcos apareceu com a faca na mão e disse que não aguentava mais minha presença ali e que eu deveria ir embora, porque se eu não fosse embora ele faria uma besteira. Lu nesse momento pareceu uma pessoa sensata e tentou acalmar Marcos, mas algo ali não estava certo. Eu não sabia do que eles estavam falando e também não sabia o que estava acontecendo. Os outros moradores apareceram, inclusive o primeiro rapaz que me recebeu, de porte atlético. Ele tinha um sorriso irônico no rosto e parecia muito calmo com aquela situação absurda. Me chamou de lado e disse que era melhor eu ir embora naquele exato momento, antes que fosse tarde. Ele era do meu tamanho, até maior, e então colocou seu braço no meu pescoço e falou no meu ouvido que Marcos era psicótico e tinha acabado de surtar, estava completamente paranoico e que tinha algo contra mim. Isso não era problema meu, disse que não iria embora e resolvi voltar para o meu quarto, na esperança que isso tudo se resolvesse e todos se acalmassem. Chegando no meu quarto Johnny ainda estava lá. Agora de cueca. Falei pra ele que era melhor ele sair, que eu estava cansado e que Marcos estava realmente insano, que seria melhor evitar mais problemas. Johnny olhou pra mim, sem emoção alguma, fechou a porta e tentou me socar, disse que agora o quarto era dele e que eu já tinha "enchido o saco", tive que segurar ele, mas ele não parava e falava que ele ia me fazer aprender uma lição. Consegui segurar ele até ele se acalmar com um mata leão, mas ele era muito forte e me quebrou demais, eu disse que só ia solta-lo se ele saísse do meu quarto naquela mesma hora, fiz ele pedir pra soltar, mas se ele tivesse continuado com certeza me dominava porque eu já não tinha mais folego algum. Peguei a roupa dele, joguei pra ele se vestir e abri a porta. Ele saiu. Passado alguns instantes, escuto uma gritaria e depois passos se aproximando. Os três aparecem no meu quarto. Me ameaçaram e diziam que eu precisava ir embora antes que alguém fizesse uma besteira. Algo não estava certo ali e havia um cheiro muito forte de carniça. Pergunto do Bruno, o outro morador de porte atlético que parecia comigo. Eles parecem muito confusos e dizem que não sabem de quem eu estou falando. Lu tira a faca do bolso e dessa vez Marcos é quem tenta acalma-lo. Tinha algo em Lu que lembrava muito uma mulher. Ele me ameaça com a faca. Tem sangue na roupa de Lu. Marcos começa a rir e responde alguém, como se tivesse um ponto eletrônico no ouvido, como se falasse com um aparelho telefônico. Johnny entra de novo no meu quarto, segura meu rosto bem firme e fala bem devagar olhando fundo nos meus olhos: "Eu te amo. Vai embora. Você precisa ir embora". Lu solta uma risada e se corta na coxa. Marcos pega a faca e se corta no braço. Eu reparo que o Johnny também parecia frio. Acho melhor não discutir e faço uma das malas, nisso Lu fica cada vez mais descontrolado e bate na mesa do quarto. "Vai embora porra!". Johnny tira toda a roupa. Eu pego o celular, falo que vou chamar o uber e que estou indo embora sim. Já não me importava em ir embora, sem dinheiro, iria para qualquer lugar, até para um hotel, qualquer lugar mesmo. A bateria do meu celular estava 13% e descarregando. Há dias que está com um problema de bateria. Meu celular desliga. Johnny se aproxima de novo, agora completamente pelado, pega a minha mão e coloca em sua garganta, tem um corte ali, esse corte não existia. Eu enlouqueci? Tem sangue nas minhas roupas. Pego uma mochila, guardo algumas coisas pessoais e saio do meu quarto, olho para dentro para fechar a porta e vejo Johnny na minha cama ensanguentado, em cima dele está Lu, de calcinha, gritando com uma faca na mão, eu fecho a porta e me afasto, a porta não tem chave. O cachorro também não está muito certo, está caído, parece morto há vários dias, realmente apodrecido, ontem mesmo estava vivo. É por isso que fedia carniça. O cachorro fedia carniça. Vou andando rápido em direção à entrada, pelo longo corredor. Escuto a porta da casa dos fundos abrindo. Começo a correr. A porta da frente está trancada e minha chave da entrada ficou na mesa do quarto. Jogo a minha mala pelo muro e pulo o portão. Começo a correr. Continuo correndo. Todas as minhas coisas ficaram nessa casa. Minha roupa está limpa. Minha mão está limpa. Eu imaginei aquele sangue? Vou embora. Penso em falar com a polícia. Volto lá no dia seguinte sozinho. Não vou a polícia porque não vão acreditar em mim. Preciso pegar o resto de minhas malas. Quem atende é o Marcos. Diz que nunca me viu antes e fecha a porta. Até hoje não sei direito o que aconteceu naquela república, será que eu tive um surto psicótico?

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Envelhecer e superar os traumas: Por que me furtaram tantas vezes?

Por muitos anos acreditei que todas as vezes que fui furtado por amigos ou conhecidos era por motivos de inveja, porque estavam me considerando um boy, um mimado, alguém que talvez tivesse grana se fazendo de pobre, mil razões, também me dava explicações condescendentes divagando sobre as condições de classe, as questões de desemprego, a condição das pessoas que me furtaram, sempre inventei mil razões para não entender logo o óbvio, que anos depois só me foi esclarecido hoje, nunca me furtaram porque me consideraram como alguém rico (já foi acusado), sempre souberam que eu também era um fodido como eles, mas me furtaram porque tinham raiva de mim, da minha indiferença, do fato de eu realmente poder sair daquele buraco se quisesse, já eles inteiramente tragados pela própria situação a que estavam amarrados, mas se eu estava lá, não estava também ligado àquele horror? Pois bem, furtos foram o que paguei por minha ignorância, por outro lado não é essa também outra daquelas velhas explicações e justificativas que me conto afim de me convencer do indefensável. Porque se eu estava indiferente, ignorante da condição a que estava cercado, eles também estavam muito cegos para a própria situação, porque nunca que foder alguém que já tá fodido vai trazer qualquer ganho pessoal, mesmo assim diferente deles eu ainda tinha algum bem material ou qualquer coisa assim, mas eles só enxergaram o ganho momentâneo, sem pensar no futuro, ou outras questões porque quando me roubaram um notebook de 6 anos, com memórias, arquivos irrecuperáveis, garantiram sim o almoço grátis por algumas semanas, talvez até pelo mês, mas e depois? Perderam um acordo muito melhor ao meu lado, uma vez que a casa era dividida com uma menina que recebia dinheiro dos pais, de um trabalhador (que tinha conseguido um estágio e já tinha um emprego em local respeitável, no caso estou falando de mim, eu mesmo), enfim, acharam melhor roubar a casa inteira para viver um mês quando poderiam prolongar meses de baixos alugueis e contas divididas, precisando apenas correr atrás de sua cota compartilhada, mas jamais vão pensar isso, por isso que vão continuar na pobreza que os cerca, mas eu escapei dessa mesma pobreza? Se escapei foi para passar ainda pior, porque acabei em um relacionamento de negócios com pessoas que me traíram assim que possível, não que o furto já não fosse a própria traição, mas houveram ainda traições piores, como no caso da ingrata e inútil que trouxe para morar comigo, paguei até aluguel adiantado pra conseguir um espaço, mantive as contas em dia por quase dois meses, para não ter nem mesmo um apoio, uma ajuda de custo qualquer, o que tive em troca foi desespero, reclamações, exigência por dinheiro, fui até chantageado em determinado momento, o que pra mim foi a gota d'água final daquele "romance". A desgraçada foi embora, levou quase tudo o que havia na casa, porque "tinha sido ela que tinha conseguido", nunca me ajudou nem mesmo com um real e ainda espalhou pelos meus espaços de vivencia que eu estava devendo dinheiro pra ela!!!! Foi horrível. Daí tem aquela história que pessoas manipuladoras se colocam sempre como vítima, não é basicamente o que estou fazendo agora? O que tenho ao meu favor é que claramente, em qualquer tribunal, não que eu confie nas leis da legislação brasileira, confio muito menos "nas leis dos homens", mas tudo o que for justo, universal, atemporal, se existe uma lei de bem comum, em todas essas leis possíveis eu com certeza sofri muito e novamente POR MINHA PRÓPRIA CAUSA, porque deveria ter ficado mais atento, deveria ter me precavido melhor, mas enfim, que atire a primeira pedra quem nunca sofreu um golpe cabuloso e PAGOU PRA VER o que seria aquilo. Muitos me alertaram, mas existe algo de irremediavelmente sedutor nessas pessoas que parecem marcadas pelo destino com o único fim de te apunhalar pelas costas e gritando que te odeiam do fundo de suas almas, isso se tiverem alguma, o que duvido. As pessoas que furtam te mostram que furtaram uma coisa ou outra ao longo do caminho, mas você meio que ignora porque "não foi lá grande coisa", mas foi sim, sempre é grande coisa quando um pobre furta outro pobre e finge que nada aconteceu, seja uma planta, seja uma roupa, qualquer coisa. Eu mesmo olhando fotos antigas percebo que perdi muitas roupas e até objetos que não caberiam em nenhum bolso, mesmo assim para onde foi tudo isso que perdi? Será que virou pedra de crack? Será que virou fralda pra algum bebê que deveria ser recolhido pelo Estado? Porque se os pais não tem condição e vão garantir uma vida de miséria para as crianças é até melhor que o Estado as recolha, ou não? Então sim, uma coisa é compreender porque alguém furta alguém, mas outra coisa é justificar tudo isso. É injustificável. Mas não foi à toa, foi diretamente contra mim, foi uma forma de me atingir, de me jogar de volta aos porcos, de me retirar à força daquele lugar de invulnerabilidade pretensiosa que me coloco sempre que me sinto inseguro, como se pudesse ter o direito de não me envolver em problemas que não teria condições de resolver. "Por que a distância? Se acha melhor do que nós?" "Por que não quer ser colocado em meio a um problema que você não iniciou, que não faz parte da sua vida, que você não tem resposta? Não quer ajudar?" Se não ajudar vamos tomar de você. Não é isso também uma forma de extorsão? Me obrigar a contribuir e me deixar em falta? Por outro lado não é também um furto ter que pagar um aluguel para viver em algum lugar? Ter que pagar para poder comer em uma sociedade que produz mais alimento do que podemos consumir e muito é desperdiçado diariamente não é também outra forma de extorquir alguém? Não é um furto ter o dinheiro que deveria ser para investimento público desviado para o enriquecimento de algum capitalista local? Não somos extorquidos todos os meses pelas taxas e tributos inseridos nas contas de luz e de água? Por outro lado realmente nunca precisei furtar ninguém pra conseguir as coisas que "eu" quero, acusando o "outro" de "egoísta" porque não "me" deu o que "eu" queria... Estranha lógica essa de quem sempre se vê sem nada. O furto do Estado contra mim é um furto que ao menos me garante uma contrapartida mínima, a saber o serviço da luz, o serviço da água, o aluguel está em um contrato mais na esfera do privado, não tanto estatal, mas ainda assim me garante o serviço de ter uma moradia. Agora o furto dos pobres contra os pobres ajuda alguém a sair de onde está? E se estiver saindo da miséria é melhor que saia rápido, porque vão tentar te impedir a todo custo. Pagar as minhas contas, não querer foder ninguém, não furtar, ser um bom cristão (essa é uma piada), Isso tudo faz de mim alguém melhor? Ter tido educação financeira (mesmo que autodidata) não é um sinal dessa diferença? Diferença que é o motivo de tanto ódio e consequentes represálias. Porém ignorância não é desculpa para mal caratismo ou justificativa para foder quem tá no mesmo patamar que o seu, já é difícil com a economia do Brasil, ainda tem que ficar expulsando os ratos antes que comam o próprio barco afundando logo à todos? Ainda por cima colocam a culpa na vítima!!!!! Quem atacou primeiro? Talvez não querer se envolver por não ter condições para resolver um problema que não é seu seja a primeira grande ofensa e motivação para uma vingança. "Como você ousa não querer resolver o meu problema por mim? Agora vai sofrer as consequências!" Daí ainda passa como se fosse você que não estivesse cooperando... Todos erram, todos mudam com o tempo, quantas vezes não me arrependi de erros cometidos, acho que todos merecem uma segunda, terceira chance, porém golpista não se lida pelo âmbito moral, mas é a forma de negócio a que eles se vêem acostumados, se encontram irremediavelmente inseridos, então não tem conversa com golpista, não tem arrependimento, em algum momento vão querer te passar a perna pra ganhar em cima, porque é o único jeito que eles concebem a realidade dos negócios, por isso que acabam na miséria, o que deve ser um aviso para toda pessoa de bem, a miséria está uma porta de distância, então cuidado, porque um dia você tem dinheiro, no outro pode até perder a vida (vida é um valor inestimável em um mundo com tempo finito e sem um além-terra "paraíso espacial"), tudo por ganância alheia.

Da pureza das intenções à crueldade humana

Às vezes sinto como se a tecnologia estivesse contra mim, me impedindo o acesso na velocidade adequada quando é necessário, existem aqueles momentos que a inspiração faz uma de suas visitas, mas pode durar tão pouco e momentos depois já se foi, bem como até mesmo sua lembrança. Quantas rimas, sons, ideias, lembranças nós já não nos esquecemos tão subitamente quanto nos recordamos. É um pouco de pretensão escrever tanto sobre coisas tão simples, bem como sobre natureza humana que é tão evidente porque nos rodeia, nos outros, em nós mesmos. Há pessoas sinceras, muito boas, que agem por bondade, enquanto outras são hipócritas, mentirosas, até mesmo em suas próprias verdades. Às vezes me coloco ao lado dos hipócritas, mas em geral acho que me coloco ao lado dos palhaços e das tragédias. Me sinto sempre péssimo, sempre me tenho repreensões, não me sinto seguro o suficiente para errar, é quase sempre como se o erro fosse a maior prova daquilo que jamais desejei ser, alguém insuficiente, imbecil, estúpido em vários sentidos, ignorante até mesmo dos costumes... Uma vez que você conhece alguém legal, em que se é possível confiar, por momentos você pode se abster de toda a comédia humana envolvendo farsantes, golpistas, mentirosos, gente que quer te prejudicar por alguma razão pessoal... É a lógica do medo e da competição. Tem vezes que me esqueço sobre quem sou, me esqueço até mesmo de quem sou, não sobre o que sou, mas sobre o que faz de mim ser eu mesmo, aquilo de mais essencial, as vezes até me esqueço e me vejo competindo, não por diversão, não por escolha, por esporte, mas quando acordo me enxergo como que tragado para todo esse ambiente de competição, acordos, traições, intrigas. Quando percebo eu fujo assim que possível, mas não tinha sido até então peça do mesmo mecanismo? Se estava lá, centrifugado por uma força que foge à todos nós, não era também parte do mesmo sistema de relações, trocas, significados? É nisso que me choco. Porque como eu disse no começo, às vezes me sinto quase que hipócrita, me envergonho, mas o que me sinto mesmo é como um palhaço dos mais rídiculos, com movimentos exagerados, suspiros altos. Mesmo assim tenho meus limites e fronteiras demarcadas, tem morais e imoralismos que não me sinto representado, talvez porque na maioria das vezes fui sim prejudicado, mas eu falo como se a minha indiferença, um lugar que funciona como aquele pedestal das pessoas inseguras, aquele lugar distante que me coloco como se fosse qualquer outra pessoa invulnerável, inviolável, para segundos depois ser derrubado e como que lançado na mais vergonhosa das lamas e consideradas grandes gafes sociais... como se minha indiferença não fosse por si só ferramenta, arma, instrumento da mais terrível das hipocrisias, da mais terrível forma de olhar nos olhos de alguém e repetir a palavra de ordem: "se vira". Porém é difícil quando você está em um barco, fazendo acordos, onde todos podem ganhar, mas muitos a sua volta não ganham nada e ainda te odeiam pelo seu progresso. Sinceramente, que progresso? É isso que choca também, o fato de ser verdade consentida meio que por todos de que a grama é sempre mais fresca no vizinho, o fato de nós nunca estarmos satisfeitos com nada, e não sei direito como deve ser para os ocidentais em geral, porque muitos não tiveram nem o mais breve contato com o budismo ou qualquer forma mais elevada de lidar com os problemas mundanos, onde dinheiro talvez não seja o mais nobre dos ideais, mas é esse um dos pontos reais, talvez sejam pessoas que so tiveram contato com religiões como aquela do cristianismo evangélico da prosperidade material como "promessa" de Deus, garantido custe o que custar... Isso tudo sem educação financeira, então fica díficil, porque significa uma realidade triste, mais do que miserável, onde não existe nem aquela pobreza honesta e idealizada de balzac ou dickens [?], muita gente ávida por dinheiro aplicando golpes tortos em gente fodida, coisas tão absurdas (para o seu sentido mais torpe e ruim) que talvez nem doistoievsky poderia antecipar. Aí fica nisso, realidade low budget tendo que lidar com as imposições que o meio te exige. Talvez farei um meme para discutir sobre a natureza humana, no seu melhor até o seu pior, sem parecer um texto sério, porque esses textos talvez alguém chegue a ler, mas em geral leio sozinho, como diário de coisas que vou me esquecer, por exemplo, percebi agora que não havia escrito nada aqui ao longo de 2019. Por que?

sábado, 18 de janeiro de 2020

Microviolências e outras frustrações cotidianas

Já nem sei direito o que escrevi nos últimos posts, mas com certeza alguns vão me deixar envergonhado. Todos os anos pareço ser outra pessoa e já não me identifico com nada do que escrevi antes, talvez com a raiz dos problemas, mas a forma de lidar ou entender os mesmos mudou em vários sentidos. Passei o dia inteiro pensando sobre o passado, com ansiedade, tive pesadelos, dias me correndo, sofrendo com meus erros, mesmo que não declarados, com o que deveria fazer e não fiz... Pensei inicialmente em escrever dois posts diferentes, mas penso que é melhor deixar tudo em algo mais conciso. Pensei muito em microviolências e liberdade. Tenho pais maravilhosos, sim, esse é um post sobre família e relacionamentos. Eles são pessoas muito boas comigo, meu pai é um homem simples, minha mãe teve educação, mas ainda assim tem diversas concepções "boomer" sobre maconha ou mesmo comunismo, apesar de ser mais liberal em relação aos lgbtqi, existem sim alguns preconceitos encobertos, talvez mais relacionados à classe, já meu pai é um pouco mais ignorante e diversas vezes o vejo cometer falas com teor racista ou homofóbico. Quando era mais novo também já cometi diversos erros de julgamento, menosprezando outras pessoas ou me menosprezando por coisas banais como aparência ou sexualidade. Na minha adolescência ouvir comentários homofóbicos na minha própria casa foi algo de grande estresse e muitas vezes me ofendeu intimamente ou me causou algum tipo de insegurança que carrego comigo até hoje, porém agora, quem eu sou, tenho muito mais noção de que essas falas são uma forma dele se sentir melhor, "mais ajustado", como mecanismo para lidar com suas próprias paranóias e frustrações. Meu pai sempre teve vergonha de ser pobre, de seu passado na pobreza, como todo heterossexual bonito, casou com uma mulher com vida financeira mais equilibrada, tanto no primeiro casamento quanto no segundo. Pouco tempo surge o milagre da vida e a gravidez. A família inteira da minha mãe foi contra e todos sempre comentaram que ele deveria trabalhar como qualquer coisa, para pelo menos ter uma carteira assinada. Meu pai sempre se recusou aos conselhos da família da minha mãe, talvez pela vontade de se afirmar, hoje está velho, doente, sem aposentadoria e ainda vive muitas vezes com o favor da família e de minha mãe. Minha mãe, coitada, recusou diversos casamentos arranjados que seriam muito melhores para ela, enquanto segurança e patrimônio, talvez também como uma forma de rebeldia contra os interesses da família, legislando sobre nós como se fossemos crianças. Voltando ao meu pai, até hoje ele tem uma loja de antiguidades, que é na verdade um dos lugares mais legais que conheço desde a infância, mas nunca foi uma loja lucrativa. Serve como forma de dizer que ele não é um simples empregado, mas dono de um estabelecimento comercial. É claro que isso marcou sua personalidade de uma hipocrisia que as vezes é indefensável para nós, seus filhos. Minha irmã mais velha até rompeu relações com ele. Por outro lado ele como todos nós é uma pessoa que cometeu erros e tem também seus arrependimentos, mesmo comentando diversas coisas homofóbicas, não sei se ele me considera heterossexual, o que acredito que não porque tive adolescência, tive namorados, e ele não é cego, além de mais velho, porém por ser um homem simples as vezes desconfio de sua percepção sobre a vida e mesmo sobre valores, uma vez que o mesmo sempre viveu às custas da minha mãe, não que ele não contribuisse, quando ele consegue um dinheiro ele gasta todo em casa, mas no sentido de que nunca foi suficiente para garantir um aluguel. Por outro lado minha casa sempre teve móveis verdadeiros, nada daquelas produções em massa com madeira prensada, todo mundo sabe o quanto é caro decorar uma casa e o quanto é caro ter uma boa cama, o que é o meu caso, tenho uma ótima cama e foi meu pai que arranjou, sem nunca me cobrar qualquer coisa. Este é o ponto, na adolescência todas essas questões interligadas mais os comentários de homofobia me incomodavam muito e me prejudicaram muito em meu desenvolvimento, até hoje tenho dificuldades para confiar em outras pessoas, tenho medo de me abrir, considero todos traidores, por outro lado hoje tenho mais referencial teórico para entender, compreender e modificar o que sinto em relação ao que os outros dizem ou fazem. Aqui na casa dos meus pais não tenho a mesma liberdade para fumar um baseado em paz, sempre existe aquela ideia "boomer" da guerra as drogas e da marginalização. Claro que tem gente que até apanha da familia se for pego fumando um baseado, tenho sorte de vir de uma família mais educada, porém é sempre aquela invasão de privacidade, não posso acender um cigarro que já batem na minha porta, reclamam do cheiro, "preciso guardar algo no seu quarto", e por aí vai, recebo mensagens no celular sobre "poder me abrir caso esteja passando por algum problema", ou "não precisa esconder nada, só queremos o seu melhor", falas que podem parecer engraçadas para alguns e bem intencionadas para outros, mas também são formas sutis de me ofender, porque me colocam como alguém que está cometendo uma ilegalidade terrível, quando só queria mesmo ficar no pc em paz, e chapado, por que não? Enfim, dias seguidos sem poder fumar tranquilamente, sempre paranóico porque em questão de minutos batem em minha porta (que preciso deixar trancada, porque se estiver destrancada vão entrar simplesmente, sem bater), por essas e outras acabo sofrendo e me sentindo muito mal, porque não quero dar nenhuma preocupação, ao mesmo tempo não tennho a mesma liberdade a que estou acostumado. Eu entendo que não estou na minha casa, não fumo na sala, vendo tv, não fumo enquanto estou cozinhando, não posso fumar na área de serviço porque "ilegal", enfim, as proibições estão postas e tem também os outros vizinhos, porque moro em prédio. As vezes sou obrigado a correr risco de sofrer algo contra minha integridade física porque preciso sair na rua para poder fumar um baseado em paz, em um pais que pode me prender por acender mato "alucinógeno", por essas e outras que acabo sofrendo demais com as outras pessoas e costumo me isolar, porque é mais seguro. Não que morar aqui com meus pais seja inseguro, mas emocionalmente, psicológicamente, mesmo que não seja uma referência a mim, ao meu individuo, é horrível ouvir comentários racistas ou homofóbicos do meu próprio pai, saber que o mesmo nunca estudou, trabalhou poucos anos formalmente e depois insistiu nisso de ser empreendedor em uma época que não tinha nem sentido (as pessoas ainda acreditavam em fundos de pensões), enfim, ele tinha toda a chance do mundo, na ditadura qualquer idiota tinha emprego formal ou era concursado, basta ver o numero de "boomers" concursados que não sabem nem mexer no celular e estão lá com seus bons salários enquanto nós jovens na miséria... É nesse sentido minha frustração também, saber de onde vim, saber o que poderia ter sido melhor na minha vida, que diferença faria se eu tivesse tido um pai estudado que tivesse ao menos um carro velho pra me passar (assim eu poderia fazer um dinheiro e deixaria rendendo em algum investimento), mas nem isso, tenho que começar do zero porque o cara que era para ser meu "idolo" ou "figura exemplar" é um cara que se recusou a trabalhar de qualquer coisa por  "orgulho"! Se não fosse esse "orgulho", se tivesse escutado qualquer comentário idiota dos meus tios mais ricos como "por que não trabalhou no supermercado?", hoje com certeza o velho estaria aposentado. Por outro lado isso é culpa da minha mãe, que nunca colocou um ponto final, uma vez que ela pode ir levando a situação com a barriga. Também não dá pra demonizar o meu pai uma vez que origem simples, baixa escolaridade, inserido artificialmente em uma família mais organizada, enfim, agora racista e homofóbico é só um complemento da classe de onde ele veio e nunca saiu de verdade, porque se saiu foi pra depender dos outros e sofrer humilhação. Como todos nós sabemos depender dos outros é um dos piores venenos que alguém pode viver submetido, eu mesmo hoje sou grato dele não ter colocado um fim em si mesmo ou nos outros, por que foi sim humilhado diversas vezes por causa de dinheiro ou falta de dinheiro, o que talvez seja um motivo pra ele insistir nessa ideia de negócio próprio... É aquilo, ilusões, ilusões, muitos me colocam como rico, não sabem o que passei aqui e o que continuo passando. Sei que tem muitas pessoas com problemas piores, que apanham em casa porque "foram flagrados" com maconha, por serem gays, sei lá, qualquer coisa rídicula assim, porém sofrimentos não são comparáveis, não existe um troféu para quem sofreu mais ou menos, independente se as pessoas não acham isso grande coisa, pra mim é sempre de grande transtorno mental/psíquico ser colocado nessa situação de "flagrante" como se estivesse com "algum problema", sem minha privacidade respeitada, ouvindo comentários ruins sobre algo que eu sou (lgbtqi), ouvindo comentários ruins sobre a raça de outras pessoas, como se isso fizesse dele melhor, porque heterossexual e "bem casado", temente a Deus, cuja "Riqueza são os filhos", me poupem disso tudo. São esses os pontos que me colocam as vezes em desespero. Seria muito mais fácil ficar aqui, sem precisar pagar aluguel, sem precisar trabalhar desgraçadamente para ter minha vida própria, mas depender dos meus pais só me faz pensar que sou o meu próprio pai e nesse sentido jamais quero viver a vida que ele levou, tenho horror a quem humilha o próximo por dinheiro, eu mesmo sendo pobre, trabalhador, as vezes penso em ficar por aqui, mas só de pensar nisso tudo, de que não posso acender um baseado em paz, porque vão entrar no meu quarto, talvez vasculhar minhas coisas quando estiver ausente, atitudes que só contribuiram para me deixar paranóico, enfim, com problemas de confiança no próximo, fora isso, o fato das piadas com homossexuais, quer dizer, se um dia eu quiser namorar um homem ele vai "ficar angustiado" ou "discordar", como se tivesse esse direito! Eu não penso em namorar um homem, já tentei algumas vezes e foi horrível, talvez por assistir o casamento tradicional maravilhoso dos meus pais, tenho trauma quando fui colocado em situação de casal com mulheres também, enfim, é péssimo não ser respeitado em minha sensibilidade, sendo obrigado a ouvir comentários de ignorância que não escuto em lugar algum, não ter dinheiro pra começar, não ter apoio do meu pai porque ele depende em partes do apoio da minha própria mãe, ter que correr atrás de tudo pra não viver na dependência e ser humilhado por causa disso, ter que ficar sozinho por não confiar em ninguém porque ninguém é de confiança, ouvir comentários homofóbicos e racistas contrariando tudo o que sou ou que acredito, não poder fumar maconha em paz, sem sofrer constrangimento, porque na lógica invertida claramente "existe um problema", o único ponto positivo é que eles não me internariam à força em campo de reabilitação algum, assim como fizeram no filme nacional "O Bicho de Sete Cabeças", porém só de ter que fumar escondido já me sinto péssimo, como se estivesse fazendo algo de errado, quando na real seria mais tranquilo viver se eles tentassem ao menos não me criminalizar ou "descobrir o meu terrível segredo", até aqueles vídeos absurdos com mentiras sobre o uso de maconha e toda aquela panfletagem careta de merda da época da ditadura que os "boomers" mandam pelo whatsapp são uma ofensa, também queria ser poupado... Tenho me cobrado um pouco pra sair de casa, dessa vez sai algumas vezes em SP, encontrei um amigo antigo muito querido, encontrei outro amigo que também gosto muito, marquei com uma amiga, mas é muito díficil pra mim querer fazer qualquer coisa que envolva ficar no frio, na chuva, pegar transporte público, socializar... Gosto muito de ficar em casa, com um cafézinho, lendo alguma coisa, por outro lado por ter que fumar maconha escondido, para não gerar comoção ou desconfianças ou mesmo preocupação desnecessária, ou comentários hipócritas de perguntas retóricas como "que cheiro é esse heim?", acabo ficando com o horário um pouco desregulado, ficando por vezes acordado de madrugada, logo perdi muitos dias que poderiam fazer algo à tarde, mesmo lidar com meus sobrinhos que são crianças lindas, diversos dias praticamente "ignorei" as crianças e isso me fez me sentir um pouco culpado, muito egoísta, poderia ter passado ao menos 15 minutos com as crianças, mas eu queria sair da cama? Me culpo também de não ter ido na minha avó doente todos os dias, mesmo assim acordo quase as 16 horas da tarde, nas férias, porque resolvi ficar online no dia anterior, não fazendo nada... Perco mais horas no facebook do que com pessoas que estão a minha volta. Porém as vezes prefiro mesmo ficar online e em casa, sem sair, fumando um baseado enquanto assisto algo no youtube, queria só conseguir acordar mais cedo para pelo menos ir almoçar com minha avó, mesmo assim me acarreta um certo sofrimento saber que ela está cada vez "morta", da mesma forma tenho sofrido psiquicamente por não dar a devida atenção às crianças, o que me deprime ainda mais, me dando ainda maior vontade de ficar sem interação alguma com ninguém, o que me acarreta ainda mais sofrimento por simplesmente não querer interagir com ninguém e me culpo por esse egoísmo.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Nothing to say, nothing to do, no news.

Faz um tempo que não paro e penso um pouco sobre tudo, por esse meio, a escrita. É possível passar dias falando consigo mesmo, no inconsciente, as vezes até quebrando o silêncio e literalmente começo a conversar comigo, repasso tudo o que errei ou o que devo fazer, meus planos, inseguranças, receios. Lembro que em 2019, logo no começo do ano, sofri um acidente e fiquei 3 meses recuperando de uma fratura na clavícula. Cai de bicicleta em uma rua perto de casa porque não vi uma construção deixada sem avisos, mas o aviso deveria ser eu mesmo, uma vez que tinha reparado na construção quando ainda era dia, porém sou realmente distraído, preocupado comigo mesmo e com todas as rotinas diferentes que preciso cumprir, chapado ainda, realmente me esqueci completamente daquela construção, por isso errei, pela falta de atenção com minha própria integridade, minha bicicleta sem lanterna, plaft, coisa de minutos ou segundos estava no chão, sangrando, sem mexer um braço. Tive a sorte de me recuperar integralmente, perdi 3 meses de dinheiro que não fiz, ganhei uma calcificação torta sobre a fratura, alguns pontos na cabeça e é claro promessas de gente que nunca me ajudou, mas deveriam me ajudar? Nunca foi nenhuma obrigação, mas não me prometa que vai me levar algo pra me ajudar e daí não leve e faça silêncio, era melhor que não houvessem prometido nada em primeiro lugar. Quem sou eu pra julgar os outros, se sou eu que fujo e abandono a todos? Mas ficar em um lugar tem seus custos, nunca foi realmente uma fuga, mas uma busca por outras formas de continuar existindo, então não podia permanecer e tive que ir para outro lugar, mas já quero ir para outro lugar novamente, não como cigano, mas como jovem que pretende-se livre. Liberdade para viver pobre precisando de favores? Fui enganado, fui roubado, fui usado, mas a culpa foi minha, porque com a idade que eu tenho deveria saber mais sobre o que fazer ou como fazer. Mesmo assim as vezes me olho no espelho e não tenho uma única pista do meu caminho. Hoje quero sempre que possível faire d'business, mas fica difícil quando todos são adolescentes ou desempregados. Também não posso culpar o meu meio social, uma vez que se estou lá é porque também faço parte de algo ali, caso contrário nem mesmo estaria, mas as vezes não estou realmente, porque estou cuidando dos meus business pessoais. Desse ponto é um passo para ser chamado de egoísta. Queria poder contribuir mais com minha família e isso tem me aterrorizado emocionalmente, minha inépcia, meus primos (mais velhos ou mais novos) tem já seus negócios reais, casamento, dinheiro para viajar realmente e eu tenho o que? Um rosto bonito? Nem sou tudo isso, apesar de algumas pessoas tentarem me convencer de que sou algo que não sou, tento viver cada vez mais como mais um camponês sem nome, vivendo humildemente minha pequena existência em algum lugar distante, mas quando chego nesse lugar é ainda mais perto de casa, porque é como se minha casa sempre estivesse ali, por que não posso contribuir com eles? Eles que merecem contribuição, não esses espaços de interesseiros e farsantes. Mas chega a ser pior, as vezes sou eu que preciso de qualquer contribuição, qualquer ajuda financeira, para simplesmente poder viver como um pobre! Preciso de ajuda financeira para ser pobre em um país de terceiro mundo, e essa pra mim é uma grande piada porque ainda por cima me acusam de playboy, se soubessem como fico culpado todas as vezes que recebo qualquer favor ou dinheiro da minha família... Se soubessem como foi dificil ficar três meses sem poder trabalhar para levantar meu próprio dinheiro e voltar a dependência da família, como um inútil, ao invés de contribuir, dilapidando o pouco dinheiro dos meus pais porque o imbecil não tinha uma grana de reserva, por outro lado tenho que me felicitar por ter sobrevivido e administrado meus poucos recursos de forma muito eficiente, precisando realmente de uma ajuda, mas nada fora do comum, se serve como desculpa jamais exigi que me mantivessem de qualquer forma, sempre corri atrás e quem me conhece pessoalmente sabe que trabalho até dois horários ou quando for possível, mas ainda assim é suficiente para apenas "viver bem", eufemismo para a realidade do trabalhador honesto, vida independente, mas nao quero ser apenas independente, quero um dia poder ajuda-los de alguma forma, porque não aceito viver às custas de ninguém.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Sujeito histórico no Brazil de 2018

Escrevo na perspectiva de um estudante marxista que viveu a maior parte da vida em um ambiente confortável, mas não rico, em uma das maiores cidades da América Latina, a saber a capital de São Paulo. Aqui tudo sempre foi muito frenético e passei toda a minha adolescência saindo em clubes noturnos onde qualquer desvio do padrão era recompesado com fama local. Assim como a beleza e as drogas sempre abriram muitas portas na vida noturna. Mas hoje me pergunto qual foi o sentido de tanto tempo gasto em noites de frio e bebedeira. Pouquissímas amizades que fiz na vida noturna da grande capital permaneceram ao meu lado, mesmo assim sei que isso tudo é em grande parte minha culpa, que escolhi me isolar. Me isolei por não aguentar o ritmo e o regime da capital, por não ter mais condições, materiais e espirituais, de sair e socializar com pessoas que muitas vezes nem mesmo me dariam qualquer apoio. Enfim, por que os outros deveriam em apoiar? Não há nem mesmo um sentido e por isso me pergunto porque passei tanto tempo como que enfeitiçado na vida noturna. Talvez não fossem as pessoas, mas a busca por diversão, a busca por um escape da grande rotina diária. Pois bem, depois de mais velho fugi da capital, e fui me exilar em uma cidade pequena, em um lugar muito distante, e atualmente vivo em Cuiabá. Para que? Como motivo principal viajei para estudar, mas estudar vivendo todas as pressões de um trabalhador tornou-se quase impossível. Minha esperança são auxílios que eu talvez nem mesmo consiga. Nessa cidade pequena encontrei novos amigos e amores e isso também foi de certa forma minha perdição. Deixo de ser eu mesmo e me perco nos inúmeros dramas que as outras pessoas vivem. Compartilho minha vida com elas e dessa forma esqueço um pouco de quem sou originalmente. Ou dou espaço para outras expressões de quem eu sou. Minha saída é focar na produção artística e na leitura dos livros. É encontrar lá o refúgio que encontro aqui. Aqui não preciso sair, posso ficar online e traduzir coisas, posso simplesmente ler alguns textos em paz. Lá de certa forma me dou ao luxo de perder meu tempo não fazendo nada exatamente. Preciso de um computador, acredito que seja essa falta que me produza a situação da angustia e do tédio que me motiva a sair de casa. Aqui, além de comida farta na geladeira, tenho café preto já preparado por meu pai e um computador a disposição. Não confio levar eu notebook para lá porque já fui roubado uma vez, logo preciso de um computador de mesa. Mas e se precisar me mudar de lá? Não seria melhor ter guardado o dinheiro? Voltarei lá ainda mais angustiado, mas acredito que será o resultado da universidade que me dará um sentido a seguir e um novo planejamento. Além do mais realmente me sinto mais disposto a viajar ao exterior e também viajar pelo Brasil. Só preciso levantar um dinheiro, de forma consciente e sem desvios. Sem impulsos, sem compulsões. Sem motéis, sem bebidas. Não sei quais são as estatísticas do Brasil hoje, mas muitos estão desempregados e eu até que tenho um trabalho e também uma formação, mas parece tão pouco perto da vida de todos os mais próximos. Me sinto sempre em atraso nesse Brasil de oportunidades que nunca parecem ser minhas.

25 05 2018

Ao som de Yes - Owner of a lonely heart.

Começo esse texto sem uma direção. Não há direção, angústia ou necessidade. Não tenho mais nenhum farol a seguir. Aqui, contento-me a mim mesmo. Sozinho. Estou em São Paulo, uma das maiores cidades, talvez a maior, de toda a América Latina. Tudo o que penso é me mudar para outra região, recomeçar em outro lugar. Novamente. Adiantou? De certa forma e por algum tempo sim. Novos ares, novas oportunidades. Em algum momento, porém, todas as portas previamente abertas parecem começar a ser fechadas, uma a uma. Talvez seja minha própria culpa, uma vez que não consigo estabelecer muito contato com meus próximos. Mantenho uma distância e na verdade até mesmo desapareço quando posso. São Paulo, cidade que fugi buscando paz, cansado do tumulto, de sempre estar absorvido nas vidas de outras pessoas, me surge agora como templo de solidão. Venho para cá e não preciso sair. Não tenho amigos na cidade e os amigos que tive não vejo mais há tempos. Cuiabá que era para mim uma cidade mais tranquila tem se tornado um local onde não permaneço só. Seja em casa ou em outros lugares, sempre vou encontrar algum amigo. Algum vizinho. A cidade é pequena e aparentemente já conheço todas as pessoas. Em São Paulo não conheço mais ninguém. Deveria sair, me encontrar com antigos contatos, ir para algum clube noturno. Mas por que e pra que sairia? Se aqui onde estou tenho tudo, um lugar confortável, um computador, comida, até o verde não me faltou. Na verdade está acabando e terei que ir ao centro comprar mais. Se o centro ainda existir após esses dois anos de exílio. Essas idas e vindas. Retornei ou estou partindo? Partindo para onde? Talvez eu não queira sair daquela cidade quente, por outro lado por que permaneceria ali? Estou matriculado em Licenciatura, e os resultados do auxílio estudantil saem dia 30. Ironicamente só conseguirei voltar à Cuiabá no dia 8. Possivelmente perderei o direito que talvez eu nem mesmo tenha conseguido. Mas se conseguir será uma perda ainda maior, porque foi tão difícil até então e no momento em que finalmente consigo o que sempre tive direito não poderei assinar simplesmente porque estive viajando para minha cidade natal. Vim por razões familiares. Penso em largar tudo, e viajar por aí. Estou na metade do ano e sem nenhuma reserva em dinheiro. Agora me lembro que sonhei com uma possível viagem ao exterior. No meu sonho haviam barreiras para a viagem. Talvez o tarot me reserve alguma surpresa. Enfim, completamente perdido, não sei nem se estou em algum caminho, em qual parte dele, se o ciclo antigo se fechou, ou se estou escapando antes mesmo do desfecho. Tenho horror a finais e talvez isso seja o erro maior, não ficar até o fim. Tenho uma impressão de que as vezes não tenho para onde voltar, ou não terei para onde voltar e certos caminhos que segui ficaram para trás sempre mal resolvidos. Algumas estradas o tempo resolveu, outras me parecem fantasmas e lembranças que tenho vergonha. Vergonha de quem eu era, mas quem eu era antes é também quem eu sou agora. Não posso esquecer o passado e tudo o que existe em mim desse lugar, mesmo assim o presente não é para mim um espaço de segurança. Não quero voltar para trás, nem repetir erros que já estão mortos, mesmo assim seguir em frente é extremamente doloroso e angustiante. Não tenho dinheiro. Não tenho formação voltada para o mercado de trabalho. Envelheço a olhos vistos. Não tenho satisfação sexual. Não quero filhos. Talvez eu nem queira mesmo o dinheiro, só não queria passar por tudo isso, pela chantagem da indigência, pelas necessidades, pelos olhares piedosos de quem tem mais, piedosos ou desdenhosos. Tenho quase 30 anos e mal consigo pagar meu próprio aluguel. Qual saídas eu tenho agora? Fixação por sexo? Distrair-me com novelas e mídia televisiva? Assistir séries?

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Minha formação e outras questões

Há exatos dois anos eu parti de minha cidade natal para uma cidade desconhecida, com o intuito de estudar em uma Universidade de outra região, conhecer um pouco esse outro lugar possível e escapar da realidade a qual estava aprisionado. Não que fosse uma realidade trágica ou mesmo tão angustiante, porém todos os que nasceram e viveram suas vidas em cidades grandes, megalópoles, sabem do sofrimento que é viver sempre em competição com os demais e correndo atrasado para pagar contas. Aqui também vivo atarefado para garantir o mínimo de dignidade (moradia, alimentação), mas ao menos garanti meu tempo livre por viver em uma cidade pequena onde não se perde tempo em locomoções diversas, de trens que parecem verdadeiros cargueiros a onibus lotados... Quando cheguei percebi que cursar engenharia seria insustentável porque não teria auxílios e teria que me manter por mim mesmo, meus pais me ajudam com pequenas quantias e mesmo essas quantias me soam como sacríficios que preferia não precisar fazê-los passar. A rotina de ser um estudante e também um trabalhador de base (sou garçom) é completamente incompátivel com cursos integrais. Tive que optar pelo dinheiro, uma vez que sem dinheiro não se come e perde-se um teto. Como posso comprar um computador se no próximo mês posso parar na rua e na marginalidade? Como posso comprar um computador se o dinheiro que consigo vai servir para comprar o gás? Enquanto a luz e a água tem cortes mensais, com posterior pagamento de multa. Por essas e outras penso em largar tudo e fugir. Largar tudo não seria a confirmação do destino pessimista que muitos esperam? Esperam que eu desista porque até agora fui infrutífero. Querem produtividade nessa economia. É possível com determinado planejamento e sabendo o que fazer com pouco dinheiro. Pois bem, resolvi voltar para minha área de primeira graduação, ciências sociais, e entrei na licenciatura. Estar na universidade é uma forma de me garantir um mínimo de resistência à total indigência. Estou refazendo todos os processos pelos quais fui indeferido no passado. Hoje tenho tido dificuldades em controlar minha raiva e revolta, acabo descontando em pessoas que não me atingem diretamente. Na fila da PRAE, com a assistente social ou burocrata concursada, um rapaz visivelmente da classe média quis indagar o que era o meu problema, pois não reconheceu uma fila ou ordem de chegada. Respondi logo que não era da conta dele e que ele esperasse na fila como todos os outros. Não precisava ter respondido assim. Aposto que daqui pra frente tenho alguém que me odeia e nem mesmo o conheço. Enfim, muitas questões, aguardo os pedidos por um mínimo de permanência nessa universidade. Como querem que eu estude e me comprometa com as aulas, se meu único trabalho é no mesmo horário das aulas? Como querem que eu estude se minha casa fica sem luz, ou sem internet? Porque moramos em repúblicas ou casas compartilhadas que não se mantém justamente por falta de dinheiro ou desemprego de alguma das partes. Quem vai cobrir o aluguel faltante do fulano que se mandou sem pagar nada? A nossa conta de internet? Então pagamos a conta de internet e ficamos sem o aluguel... É esse o tipo de vida, gentrificação social constante, por não existir formas das pessoas se manterem por muito tempo, salvo se estão empregadas e caso esse emprego não seja no mesmo horário das aulas. A maioria dos empregos de base é em regime integral. Eles esperam que você trabalhe do começo da tarde e até a noite... Quem pode comprometer tanto tempo assim se precisa estudar? Uma das formas possíveis foi investir uma quantidade de dinheiro em uma festa, que foi boicotada por todas aquelas parcerias que diziam me ajudar. Ao menos hoje tenho pra mim como produzir uma festa, mas sem dinheiro algum para dar inicio. Preciso de no mínimo 300 reais, fora o valor do aluguel e comida do mês. Trabalhando aos fins de semana e sem auxílio. Enfim, como produzir artisticamente no futuro sem um computador e sem um estúdio de produção que tenha estabilidade. Estabilidade não deveria ser o quarto dos fundos da casa dos meus pais, porque lá a liberdade também é limitada. E aqui onde seria possível não é, porque outras pessoas realizam os mais diversos boicotes. A minha república mesmo, vai quebrar em algum momento porque pretendem fazer com que nós paguemos pelos valores dos alugueis que não foram pagos de pessoas que simplesmente foram embora, sendo que ja é dificil pagar o proprio aluguel, logo não sei até quando eu resisto a essa situação, tenho pensado em levar o que tenho em excesso para São Paulo e voltar para cá em situação de total indepedência de bens materiais, fora o que pode ser utilizado para produção artistica (livros, computador, telas, tinta, etc).

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Gaia e cristais

Today a guy asked me if I'm a nature guy. My answer was that I was almost a hippie, but I'm not, out of cowardice or because I never want to, if I did not want to, why did not want it? Anyway, I know I'm not and that's enough. Then I respond that I would like to enjoy a waterfall with a good pipe, to stay naked in the bush, to take indigenous medicine, a more naturalistic life. Imagine that in the ears of conservative people. They will not understand anything, and they will still judge the most astonishing and astonishing thing about this reality, but you will not give a damn about social judgment, will you? I do not know, every time someone breaks up with the status quo it's like they're just being rude to everyone. I thought of answering as soon as I knew people who spoke of gaia years ago, and who preferred food not linked to death (direct death because there is indirect, for land, even if it is direct and automatic, anyway, but the slaughterhouse is the industry that kills directly, the henchmen are the reflection of this initial factory). That is, in other words, it is necessary to increase the production of animal death, because capital needs to be expanded, so it is necessary to have more land, then more agrarian conflict, an infinite chain of symbolic and material deaths. The indigenous are also killed in this process initiated by the implementation of a death machine. That way I am against and consider vegetarian food healthier and more logical in a world of finite resources. I value logic and not money. About crystals, there are those who consider healing or energetic, I do not doubt because sometimes people tell me that God is something that you experience, know that it is, but can not see or feel, then kind of God is Wi-Fi in that description of something invisible like the wind, as well as all other energies and plants, etc. On plants, a large plant in the bathroom makes all the difference in the energy of the place. People laugh at decoration, because it's a faggot thing, look at the prejudiced, illiterated people of our daily lifes because it's basically feng shui.

Hoje um rapaz me perguntou se sou um cara da natureza. Minha resposta era a de que eu era quase um hippie, mas não sou, por covardia ou porque nunca quis, se não quis, por que não quis? Enfim, sei que não sou e isso basta. Fui responder então que curtia uma cachoeira com um bom cachimbo, ficar peladão no mato, tomar medicina indígena, uma vida mais naturalista. Imagina isso nos ouvidos de gente conservadora. Não vão entender nada e ainda acabarão por julgar o mais impressionante e mirabolante possível sobre essa realidade, mas que se dane o julgamento social, não é mesmo? Não sei, toda vez que alguém rompe é como se estivesse simplesmente sendo rude com todos. Pensei em responder logo que conhecia gente que falava em gaia anos atrás, e que preferia alimentos não ligados a morte (morte direta porque existe a indireta, por terras, mesmo que seja direta e automática também, enfim, mas o abatedouro é a indústria que mata diretamente, os capangas são o reflexo dessa fábrica inicial). Isto é, em outras palavras, é necessário aumentar a produção de morte de animais, porque o capital precisa ser expandido, logo é preciso possuir mais terras, logo mais conflito agrario, uma cadeia infinita de mortes simbolicas e materiais. Os indígenas são também mortos nesse processo iniciado através da implementação de uma máquina de morte. Dessa forma sou contra e considero a alimentação vegetariana mais saudável e lógica em um mundo de recursos finitos. Prezo a lógica e não o dinheiro. Sobre cristais, há quem os considere curativos ou energéticos, não duvido porque as vezes as pessoas me falam que deus é algo que você experiencia, sabe que esta la, mas não pode ver ou sentir, então meio que Deus é o Wi-Fi nessa descrição de algo invisível como o vento, assim como todas as demais energias e plantas, etc. Sobre plantas, uma grande planta no banheiro faz toda a diferença na energia do lugar. As pessoas riem de decoração, porque é coisa de viado, vejam bem o preconceito, analfabetos da vida porque é basicamente feng shui.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Travelling nightmare. Pesadelo na viagem. Cauchemar pendant le voyage.

On my trip back to the city where I decided to start over my life, - a city that was chosen at random and due to a court note for a course that I had interest until then -, I had a very realistic nightmare. I dreamed I was in a graveyard, and there were friends and close relatives, including my mother. I admired and took pictures of the objects of art, inscriptions and paintings of the tombs, and many were of incredible beauty. Some images could be touched and after that they disappeared like dust. There was a boy, perhaps a stuffed animal and other children's toys. Somehow it was not a graveyard of older people, and the tombs were usually children's graves. From one of the toys jumped a cockroach, one of those that are from sewers and giant and I've never really seen it. I woke up on the travel bus and realized that the experience had been a dream, but still I could still hear the sound of the giant cockroach moving. I also felt and remembered the children's tombs and the lost images becoming dust after waking up. Perhaps they are influences of my family life back in São Paulo. With each passing year my maternal grandmother seems to be weaker. She will in the end of that month make her 94 years. 94 years is a whole lifetime. Somehow her presence is what binds practically a large part of the family, and in case my grandmother dies everything can change. Death is a great tragedy. My grandmother represents a world. A world that will also disappear. The house where she lives is the house where I spent my childhood. The metaphor of Tragedy is a rented house. It is a rented house where more than three generations have grown and lived. There have been attempts to buy the house in the past, but it was never possible. If my grandmother dies the house will also end. And with it my only bond with childhood and the family celebrations that have always happened there will cease to exist. The whole family waits for it, it's like a funeral procession. Death is a complete world. Those corridors and rooms are my memory. My family lived for years in the house next door, which had basically the same structure and construction project. We had even made a door between the walls of the two housese. My grandmother's house was the place where I spent my afternoons, nights and my life until then. Time has no limits, but it puts a limit on everything that could be enduring. Losing my grandmother is losing my childhood too. It is losing the meeting place of the family as a whole. It's having to give back a memory space or redo a lease, this time with a price that is no longer the price of my grandfather's time, where at least society was a little less unfair and real estate had not such a exorbitant value. This is the end. The end of a period. Maybe Vargas dies there too. The Japanese immigrants all die a little there. My grandmother is all that. Her existence or death will be a bit of capitalism consuming entire families and driving people out of their homes. The house is not ours, even after more than 60 years. The owner, who had made the contract and who knew our family has died. It's your children who never wanted to sell the place. It's their children who tried new contracts and often tried to break our contract for another venture. In the name of money. It would be profitable to expel my grandmother from there, with that contract from the Vargas times. Inflation and society have become something else. How long will the memory withstand time? It's the end. The end is tragic. Death is the end. There is nothing after death. Maybe a picture, a memory, a forgotten memory. Any object whatsoever.


Na minha viagem de volta à cidade onde resolvi recomeçar minha vida, cidade que foi escolhida ao acaso e em razão de uma nota de corte para um curso que tinha interesse até então, tive um pesadelo muito realista. Sonhei que estava em um cemitério, e haviam amigos e parentes próximos, incluindo a minha mãe. Admirava e tirava fotos dos objetos de arte, inscrições e pinturas dos túmulos e muitos eram de uma beleza incrível. Algumas imagens podiam ser tocadas e a partir daí desapareciam como pó. Havia um menino, talvez uma pelúcia e demais brinquedos de crianças. De alguma forma não era um cemitério de pessoas mais velhas, sendo em geral túmulos infantis. De um dos brinquedos pulou uma barata, daquelas de esgoto que são gigantes e nunca vi na realidade. Acordei no ônibus de viagem e percebi que aquela vivência tinha sido um sonho, mas mesmo assim ainda escutava o som da barata gigante se movendo. Também sentia e lembrava dos túmulos infantis e das imagens perdidas se tornando pó. Talvez sejam influências da vida familiar em São Paulo. A cada ano que passa minha avó materna parece estar mais fraca. Vai fazer agora no fim desse mês 94 anos. 94 anos é uma vida inteira. De alguma forma sua presença é o que liga praticamente uma grande parte da família, e caso minha avó venha a falecer tudo pode mudar. A morte é sim uma grande tragédia. A minha avó representa um mundo. Um mundo que também vai desaparecer. A casa onde ela mora é a casa onde passei a minha infância. Por tragédia é uma casa alugada. É uma casa alugada onde mais de três gerações cresceram e viveram. Houveram tentativas de comprar a casa no passado, mas nunca foi possível. Se minha avó morrer a casa também vai acabar. E com ela meu único vínculo com a infância e as festas em família que sempre aconteceram lá deixarão de existir. Toda a família espera por isso, é como um cortejo funebre. A morte é um mundo completo. Aqueles corredores e salas são minha memória. Minha família morou por anos na casa ao lado, que tinha basicamente a mesma estrutura e projeto de construção. Tinhamos feito até uma porta entre os muros. A casa da minha avó foi o local onde passei minhas tardes, noites e minha vida até então. O tempo não tem limites, mas põe um limite em tudo o que poderia ser duradouro. Perder a minha avó é perder também a minha infância. É perder o local de encontro da família como um todo. É ter de devolver um espaço de memórias ou refazer um contrato de aluguel, dessa vez com um preço que não é mais o preço da época do meu avô, onde ao menos a sociedade era um pouco menos injusta e os imóveis não tinham um valor tão exorbitante. Esse é o fim. O fim de um período. Talvez Vargas morra ali também. Os imigrantes japoneses morrem todos um pouco ali. A minha avó é tudo isso. A minha avó é um pouco do capitalismo consumindo famílias inteiras e expulsando pessoas de suas casas. A casa não é nossa, mesmo após mais de 60 anos. O dono, quem havia feito o contrato e quem conhecia nossa família também já morreu. São seus filhos que nunca quiseram vender o lugar. São seus filhos que tentaram novos contratos e muitas vezes tentaram quebrar o nosso contrato para um outro empreendimento. Em nome do dinheiro. Seria lucrativo expulsar minha avó de lá, com aquele contrato dos tempos de Vargas. A inflação e a sociedade se tornaram outra coisa. Até quando a memória vai resistir ao tempo? É o fim. O fim é trágico. A morte é o fim. Não há nada depois da morte. Talvez uma foto, uma lembrança, uma memória esquecida. Um objeto qualquer.

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Lors de mon voyage à la ville où j'ai décidé de commencer ma vie, une ville qui a été choisie au hasard et à cause d'une teneur de coupure pour un cours qui avait un intérêt jusque-là, j'ai eu un cauchemar très réaliste. J'ai rêvé que j'étais dans un cimetière, et qu'il y avait des amis et des parents proches, y compris ma mère. Il a admiré et pris des photos des objets d'art, des inscriptions et des peintures des tombes, et beaucoup étaient d'une beauté incroyable. Certaines images ont pu être touchées et de là elles ont disparu comme de la poussière. Il y avait un garçon, peut-être une peluche et d'autres jouets pour enfants. D'une manière ou d'une autre, ce n'était pas un cimetière de personnes âgées, et elles étaient généralement des tombes d'enfants. Un des jouets a sauté un cafard, un de ces égouts qui sont géants et je ne l'ai jamais vraiment vu. Je me suis réveillé dans le bus de voyage et j'ai réalisé que l'expérience avait été un rêve, mais je pouvais encore entendre le bruit du cafard géant en mouvement. Elle a également senti et s'est souvenu des tombes des enfants et des images perdues devenant la poussière. Peut-être sont-ils des influences de la vie de famille à São Paulo. Avec chaque année qui passe, ma grand-mère maternelle semble être plus faible. Ce sera maintenant fait à la fin de ce mois de 94 ans. 94 ans c'est toute une vie. D'une certaine façon, leur présence est ce qui lie pratiquement une grande partie de la famille, et au cas où ma grand-mère meurt, tout peut changer. La mort est une grande tragédie. Ma grand-mère représente un monde. Un monde qui disparaîtra aussi. La maison où elle habite est la maison où j'ai passé mon enfance. La tragédie est une maison louée. C'est une maison louée où plus de trois générations ont grandi et vécu. Il y a eu des tentatives d'achat de la maison dans le passé, mais cela n'a jamais été possible. Si ma grand-mère meurt, la maison prendra également fin. Et avec cela mon seul lien avec l'enfance et les fêtes de famille qui ont toujours eu lieu là-bas cesseront d'exister. Toute la famille l'attend, c'est comme un cortège funèbre. La mort est un monde complet. Ces couloirs et ces chambres sont ma mémoire. Ma famille a vécu pendant des années dans la maison d'à côté, qui avait essentiellement la même structure et le même projet de construction. Nous avions même fait une porte entre les murs. La maison de ma grand-mère était l'endroit où je passais mes après-midi, mes nuits et ma vie jusque-là. Le temps n'a pas de limites, mais il limite tout ce qui pourrait durer. Perdre ma grand-mère perd aussi mon enfance. C'est perdre le lieu de rencontre de la famille dans son ensemble. Vous devez retourner un souvenir d'espace ou de renouveler un bail, cette fois avec un prix qui ne soit plus le prix de mon grand-père, où au moins la société était un peu moins injuste et de bâtiments sans valeur exorbitant C'est la fin. La fin d'une période. Peut-être que Vargas meurt là aussi. Les immigrants japonais meurent tous un peu là-bas. Ma grand-mère est tout cela. Ma grand-mère, c'est un peu le capitalisme qui consume des familles entières et qui chasse les gens de chez eux. La maison n'est pas la nôtre, même après plus de 60 ans. Le propriétaire, qui avait passé le contrat et qui connaissait notre famille, est décédé. Ce sont vos enfants qui n'ont jamais voulu vendre l'endroit. Ce sont leurs enfants qui ont essayé de nouveaux contrats et ont souvent tenté de rompre notre contrat pour une autre entreprise. Au nom de l'argent. Il serait profitable d'expulser ma grand-mère là-bas, avec ce contrat de fois Vargas. L'inflation et la société sont devenues autre chose. Combien de temps la mémoire supportera-t-elle le temps? C'est la fin. La fin est tragique. La mort est la fin. Il n'y a rien après la mort. Peut-être une image, un souvenir, un souvenir oublié. Tout objet quel qu'il soit.

domingo, 14 de janeiro de 2018

One who sees clearly - Aquele com visão - Celui qui voit clairement



The etymology of the word "Dragon" comes to us from the Latin but is derived fundamentally from the Greek, though the origin of the word and its definition is probably much older. The word in Greek is drakon, as in edrakon, an aorist of Derkesthai, which means "to see clearly".
A Dragon was one who saw clearly, and clarity of vision engendered was always classically associated with wisdom, which itself produced power. Today we say that knowledge is power, so nothing has changed in that respect, except that it is actually wisdom--the ability to predict or intuit and synthesise knowledge--a prerequisite of Druidic or Fairy neuro-physiology, that actually affords the greatest power of all.
In a progression of logic that naturally suggests itself, we are therefore entering in upon the linguistic territory of the Seer, the Witch and the Magus, with whom the foregoing qualities have always been identified, a state of affairs with which etymologists concur. From there, in the Gaelic realms, we encounter the Merlin, a name which, like Dragon, literally means "seer", and who furthermore, were of a class of Druid priests or philosophus or magi, as they were also known in classical times. Anciently the foregoing regional epithets were all attributed to one royal, priestly tribe originally known in Indo-European as the Arya: the "race of the wise ones", a caste which was described in Latin as the nobilis, which is a name that originated from the Greek root gno, meaning "to know".
Similarly the word king is derived from the related Gothic word kuningzam, meaning both "knowing one" and "scion of the noble (meaning wise) race". In addition we have the word siddhis, meaning "the powers" and from this word or vice versa, was derived the tribal name the Scythians, the Arya-Sidhe or Sidheans. The siddhi were a range of psychic or paranormal phenomena which manifested themselves as the attributes of those Tantric priests in Eurasia who had attained samadhi or "enlightenment".
These people, coterminously the Aryans or Scythians, who are thought to have developed Tantra in Sumeria, were known as the legendary Tuadha d'Anu (tribe of Anu and by a traditional, widely known derivation--"people of the stars") or daouine sidhe (meaning "people of the powers") in the Gaelic countries. They were the "wise ones", the Elves or Fairies. From this we can conclude that by correct definition, a Dragon was originally (by blood descent from the race of the wise) an overlord, an Archdruid or bruidhina, Magus and a seer, an Elven goddess-queen or god-king. Such are not to be confused with the warrior kings or tinker dynasties installed by the Roman Church over the last 1500 years, nor with any modern royal family. The Druidhe were kings above kings.
-- The Dragon Legacy by Nicholas de Vere, pp 41, 42

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A etimologia da palavra "Dragão" vem para nós do latim, mas é derivada fundamentalmente do grego, embora a origem da palavra e sua definição seja provavelmente muito mais antiga. A palavra em grego é drakon, como em edrakon, um aorista de Derkesthai, que significa "ver claramente".
Um dragão era aquele que viu claramente, e a clareza de visão produzida sempre foi classicamente associada à sabedoria, que por sua vez reproduz poder. Hoje, dizemos que o conhecimento é poder, então nada mudou a esse respeito, exceto que é realmente sabedoria - a capacidade de prever ou intuir e sintetizar o conhecimento - um pré-requisito para a neuro-fisiologia druida ou fada, que realmente permite o melhor poder de todos.
Em uma progressão da lógica que se sugere naturalmente, entramos no território linguístico do vidente, da bruxa e do mago, com quem as qualidades de previsão sempre foram identificadas, um estado de coisas com o qual os etimologistas concordam. De lá, nos reinos gaélicos, encontramos o Merlin, um nome que, como Dragon, significa literalmente "vidente", e que, além disso, era de uma classe de sacerdotes druidas ou filosofos ou magos, como também eram conhecidos nos tempos clássicos. Antigamente, os epítetos regionais dos adivinhadores foram atribuídos a uma tribo real, sacerdotal originalmente conhecida em indo-européia como a Arya: a "raça dos sábios", uma casta que foi descrita em latim como o nobilis, que é um nome que se originou da raiz gno gno, que significa "saber".
Da mesma forma, a palavra rei é derivada da palavra gótica relacionada kuningzam, que significa "conhecer um" e "descendente da raça nobre (que é sábio)". Além disso, temos a palavra siddhis, que significa "os poderes" e, a partir desta palavra ou vice-versa, derivou-se o nome tribal dos citas, dos Arya-Sidhe ou Sidheans. Os siddhi eram uma série de fenômenos psíquicos ou paranormais que se manifestavam como atributos daqueles sacerdotes tântricos na Eurásia que alcançaram o samadhi ou "iluminação", muitos dos quais eram também forças de previsão ou de sabedoria, como nas histórias em relação ao guru Neem Karoli Baba.Essas pessoas, de forma direta, os arianos ou os citas, que se pensa ter desenvolvido o Tantra em Sumeria, eram conhecidas como a lendária Tuadha d'Anu (tribo de Anu e por uma derivação tradicional e amplamente conhecida - "pessoas das estrelas") ou Daouine sidhe (que significa "pessoas dos poderes") nos países gaélicos. Eles eram os "sábios", os Elfos ou as Fadas. A partir disso, podemos concluir que, por definição correta, um Dragão era originalmente (por descendência de sangue da raça do sábio) um senhor superior, um Arquidruida ou bruidhina, Magus e um vidente, uma deusa rainha elfíca ou um Deus rei. Tais não devem ser confundidos com os reis guerreiros ou dinastias tinker instaladas pela Igreja Romana nos últimos 1500 anos, nem com nenhuma família real moderna. Os Druidhe eram reis acima dos reis.

-- The Dragon Legacy por Nicholas de Vere, pp 41, 42

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L'étymologie du mot "Dragon" nous vient du latin, mais est dérivé fondamentalement du grec, bien que l'origine du mot et sa définition est probablement beaucoup plus ancienne. Le mot grec est drakon, comme dans edrakon, un aoriste de Derkesthai, qui signifie «voir clairement».
Un dragon était celui qui voyait clairement, et la clarté de la vision produite a toujours été classiquement associée à la sagesse, qui à son tour reproduit le pouvoir. Aujourd'hui, nous disons que la connaissance est le pouvoir, alors rien n'a changé à cet égard, sauf qu'il est vraiment la sagesse - la capacité de prédire ou Intuit et synthétiser les connaissances - une condition préalable à la neuro-physiologie druide ou féerique, qui permet vraiment le meilleur pouvoir de tous.
Dans une progression logique qui suggérerait naturellement nous sommes entrés sur le territoire linguistique du devin, sorcière et sorcier, avec qui les qualités prédictives ont toujours été identifiées, une situation dans lequel les étymologistes d'accord. De là, les royaumes gaélique, nous trouvons le Merlin, un nom comme Dragon, signifie littéralement « devin », et que, d'ailleurs, était une classe de prêtres druides ou les philosophes ou les sages, comme ils ont été connus à l'époque classique. Auparavant, les épithètes augures de la région ont été assignés à une redevance tribale, sacerdotale indo-européenne connue à l'origine comme l'Arya: « race des sages, » une caste qui a été décrit en latin nobilis, qui est un nom qui a pris naissance de la racine gno gno, qui signifie "savoir".

De même, le mot de roi est dérivé du mot gothique de kuningzam associée, ce qui signifie « savoir une » et « descendant de la noble race (qui est sage). » De plus, nous avons le mot siddhis, ce qui signifie « pouvoirs » et de ce mot ou vice versa, dérivé du nom de la tribu des Scythes, l'Arya-Sidhe ou Sidheans. Le Siddhi était un certain nombre de phénomènes psychiques ou paranormaux qui se manifeste sous forme d'attributs de ces prêtres tantriques en Eurasie qui ont atteint le samadhi ou « illumination », dont beaucoup ont été aussi la force de la sagesse ou de prévision, comme dans les histoires concernant le gourou Neem Karoli Baba. es personnes, directement, les Aryens ou les Scythes, qui pensait avoir développé le Tantra à Sumer, étaient connus comme le légendaire Tuadha d'Anu (tribu Anu et une dérivation traditionnelle et largement connue - « les gens de étoiles ") ou Daouine sidhe (signifiant" peuple de pouvoir ") dans les pays gaéliques. Ils étaient les "sages", les Elfes ou les Fées. De cela, nous pouvons conclure que, pour la définition correcte, un dragon était à l'origine (pour les semences du sang de la race sage) un seigneur supérieur, un archidruide ou bruidhina, Magus et un devin, un elfe-reine déesse ou un dieu-roi. Cela ne doit pas être confondu avec les rois guerriers ou les dynasties de bricoleurs installés par l'Église romaine au cours des 1500 dernières années, ni avec aucune famille royale moderne. Les Druidhe étaient des rois au-dessus des rois.


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My comments and some ideas.

It is worth noting that real power does not derive from force or violence, but from it's correct opposite, the knowledge of foresight, from what has already been seen in the aorist form, from the wisdom derived from infinite time, and from a people whose greatest ideal is the very discovery of a world seen by those who have a vision. Obviously, the sages, who have the vision, and the wisdom, are not harmless because their power derives from the prediction of events in time and space, and any action that produces consequences has as purpose the execution of the events that will derive from the action itself, it's purpose is not action by itself, but action as the trigger of time, action, or movement which however objective it may be does not yet have the vision and clarity to see its own result. The logical result a wise man already knew. The man who kills with the sword will die by the sword is an aorist phrase that has lost its sense of continuity, future, past, indeterminacy and infinite in time, continuous and eternal moment that can be known through enlightenment.

Meus comentários e algumas ideias.


Vale ressaltar que o poder real não deriva da força ou da violência, mas de seu correto oposto, o saber da previsão, do já visto em aorista, da sabedoria derivada do tempo infinito e de um povo cujo ideal maior é a própria descoberta de um mundo enxergado por aqueles que tem uma visão. Obviamente, os sábios, que tem a visão, e a sabedoria, não inofensivos porque o seu poder deriva da previsão dos acontecimentos no tempo e espaço, e qualquer ação que produza consequências tem como finalidade a execução dos acontecimentos que derivarão da própria ação, sua finalidade não é a ação por ela mesma, mas a ação enquanto gatilho do tempo, ação ou movimento que por mais objetivo que possa ser não possui ainda a visão e a clareza para enxergar o seu próprio resultado. Resultado lógico que um sábio já sabia. O homem que mata com a espada morrerá pela espada é uma frase aorista que perdeu seu sentido de continuidade, futuro, passado, indeterminação e infinito no tempo, momento contínuo e eterno que pode ser conhecido por meio da iluminação.

Mes commentaires et quelques idées.

Il est à noter que le pouvoir réel ne dérive pas de la force ou de la violence, mais de son contraire, la connaissance de la prévoyance, de ce qui a déjà été vu en aoriste, de la sagesse dérivée du temps infini et d'un peuple dont le plus grand idéal est la découverte de un monde vu par ceux qui ont une vision. Évidemment, les sages, qui ont la vision et la sagesse, ne sont pas inoffensifs parce que leur puissance dérive de la prédiction des événements dans le temps et l'espace, et toute action produisant des conséquences a pour but l'exécution des événements qui dérivent de l'action elle-même. Le but n'est pas l'action en soi, mais l'action en tant que déclencheur du temps, de l'action ou du mouvement qui, quel que soit son objectif, n'a pas encore la vision et la clarté nécessaires pour voir son propre résultat. Le résultat logique qu'un homme sage connaissait déjà. L'homme qui tue avec l'épée mourra par l'épée est une phrase aoriste qui a perdu son sens de continuité, futur, passé, indétermination et infini dans le temps, instant continu et éternel qui peut être connu à travers l'illumination.