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terça-feira, 9 de junho de 2020

A república - 06/06/2020

Não tinha mais para onde ir e precisava alugar logo um espaço em algum pensionato qualquer. Como tinha pouco dinheiro não tive muitas opções de escolha e acabei procurando um lugar que concentrasse um custo menor com um maior número de benefícios. Achei um anúncio e fui dar uma olhada. A casa era interessante, se tratava de uma casa grande, com vários quartos, espaço de convívio central e uma segunda casa ou casa dos fundos, separada por dois longos corredores laterais, era como se fosse um oito (8), ou um H, levei alguns itens pessoais, algumas malas, um pouco desgastante o trajeto, as malas todas pesadas, fui direto para o pequeno quarto dos fundos, que não tinha uma chave. Quem me recebeu foi um rapaz que parecia bem legal a primeira vista, e haviam outros moradores que acabaria por conhecer ao longo do tempo ali. Era uma república aberta as diferenças e sem muitos julgamentos. Logo de início me identifiquei com o Bruno, ele era alto e até um pouco padronizado, porte atlético, boa aparência. Com o passar dos dias chegou um novo morador, e assim como eu, este novo morador preferia não socializar muito e eu não encontrava muito com ele, porque afinal meu quarto ficava na casa dos fundos, então os encontros eram esporádicos na sala de convivência central, mas muitas vezes eu permanecia no meu quarto de qualquer maneira. Esse novo morador a qual vou chamar de Marcos em poucos dias mudou de comportamento e começou a trazer alguns amigos para o convívio geral, tocava músicas, muita bebida, algumas festas. A maior parte das pessoas que frequentavam eram gays ou bissexuais, acho que apenas dois moradores da república eram heterossexuais e uma única mulher grávida morou também por um tempo nessa casa, mas coisa de três dias depois de minha mudança eles se mudaram. Com o passar dos dias Marcos fez mais uma das costumeiras festas e depois disso duas pessoas ficaram morando no quarto dele ou pelo menos não pareciam ir embora. Uma delas ele apresentou como o namorado dele e a outra era um amigo. O namorado dele era um pouco calado, mas muito atraente, tinha alguma fixação com os outros homens da casa e me chamava sempre pra um cigarro e conversar. Vou chama-lo de Johnny.  O amigo era mais afeminado, mas ainda assim um homem, com um penteado mais chamativo e toda aquela postura mais territorial, fixando sempre a atenção para si, falava alto, realmente agia como um pavão, apesar de se dizer mais próximo das mulheres ou tentar alguma amizade com as mulheres da casa ou amigas dos outros rapazes, o nome dele era Lu. Tudo isso aconteceu em menos de um mês, duas semanas, foi uma questão de dias. Havia um cachorro nos fundos, que era bem grande e pertencia ao pessoal que era responsável pelas contas dessa República. Esse cachorro era bem bonzinho, mas sempre parecia meio frio, também não me lembro muito bem da ração, mas era um pote que sempre estava vazio, as vezes eu colocava alguma coisa ou ele lambia algo no chão, mas não era um cachorro com calor. Alguns objetos da casa começaram a desaparecer, mas nada de importante, até que um dia cheguei no meu quarto e encontrei o namorado do Marcos dormindo lá mesmo, na minha cama. Fui falar com ele e ele disse que havia brigado com o Marcos e que agora o Marcos estava na Sala com uma faca, disse que eles tinham bebido muito e acabaram discutindo. Pedi que ele saísse, mas o Johnny pediu para ficar ali. Fui na sala central da casa da frente entender a situação, um pouco contrariado por ter sido envolvido em problemas desnecessários, mas chegando lá não encontrei o Marcos. Lu apareceu falando que eu tinha que ir embora e me deu um tapa muito forte. Começou a me ameaçar, dizer que ia chamar a polícia, que sabia o que eu tinha feito e eram acusações sem sentido, mas ele estava realmente muito irritado comigo. Tenho pra mim que ele era apaixonado pelo Johnny. Eu disse que eu não iria embora, porque já tinha pago o mês e só iria receber em alguns dias e ele nem mesmo era morador para dizer o que eu deveria fazer ou não. Nesse momento Marcos apareceu com a faca na mão e disse que não aguentava mais minha presença ali e que eu deveria ir embora, porque se eu não fosse embora ele faria uma besteira. Lu nesse momento pareceu uma pessoa sensata e tentou acalmar Marcos, mas algo ali não estava certo. Eu não sabia do que eles estavam falando e também não sabia o que estava acontecendo. Os outros moradores apareceram, inclusive o primeiro rapaz que me recebeu, de porte atlético. Ele tinha um sorriso irônico no rosto e parecia muito calmo com aquela situação absurda. Me chamou de lado e disse que era melhor eu ir embora naquele exato momento, antes que fosse tarde. Ele era do meu tamanho, até maior, e então colocou seu braço no meu pescoço e falou no meu ouvido que Marcos era psicótico e tinha acabado de surtar, estava completamente paranoico e que tinha algo contra mim. Isso não era problema meu, disse que não iria embora e resolvi voltar para o meu quarto, na esperança que isso tudo se resolvesse e todos se acalmassem. Chegando no meu quarto Johnny ainda estava lá. Agora de cueca. Falei pra ele que era melhor ele sair, que eu estava cansado e que Marcos estava realmente insano, que seria melhor evitar mais problemas. Johnny olhou pra mim, sem emoção alguma, fechou a porta e tentou me socar, disse que agora o quarto era dele e que eu já tinha "enchido o saco", tive que segurar ele, mas ele não parava e falava que ele ia me fazer aprender uma lição. Consegui segurar ele até ele se acalmar com um mata leão, mas ele era muito forte e me quebrou demais, eu disse que só ia solta-lo se ele saísse do meu quarto naquela mesma hora, fiz ele pedir pra soltar, mas se ele tivesse continuado com certeza me dominava porque eu já não tinha mais folego algum. Peguei a roupa dele, joguei pra ele se vestir e abri a porta. Ele saiu. Passado alguns instantes, escuto uma gritaria e depois passos se aproximando. Os três aparecem no meu quarto. Me ameaçaram e diziam que eu precisava ir embora antes que alguém fizesse uma besteira. Algo não estava certo ali e havia um cheiro muito forte de carniça. Pergunto do Bruno, o outro morador de porte atlético que parecia comigo. Eles parecem muito confusos e dizem que não sabem de quem eu estou falando. Lu tira a faca do bolso e dessa vez Marcos é quem tenta acalma-lo. Tinha algo em Lu que lembrava muito uma mulher. Ele me ameaça com a faca. Tem sangue na roupa de Lu. Marcos começa a rir e responde alguém, como se tivesse um ponto eletrônico no ouvido, como se falasse com um aparelho telefônico. Johnny entra de novo no meu quarto, segura meu rosto bem firme e fala bem devagar olhando fundo nos meus olhos: "Eu te amo. Vai embora. Você precisa ir embora". Lu solta uma risada e se corta na coxa. Marcos pega a faca e se corta no braço. Eu reparo que o Johnny também parecia frio. Acho melhor não discutir e faço uma das malas, nisso Lu fica cada vez mais descontrolado e bate na mesa do quarto. "Vai embora porra!". Johnny tira toda a roupa. Eu pego o celular, falo que vou chamar o uber e que estou indo embora sim. Já não me importava em ir embora, sem dinheiro, iria para qualquer lugar, até para um hotel, qualquer lugar mesmo. A bateria do meu celular estava 13% e descarregando. Há dias que está com um problema de bateria. Meu celular desliga. Johnny se aproxima de novo, agora completamente pelado, pega a minha mão e coloca em sua garganta, tem um corte ali, esse corte não existia. Eu enlouqueci? Tem sangue nas minhas roupas. Pego uma mochila, guardo algumas coisas pessoais e saio do meu quarto, olho para dentro para fechar a porta e vejo Johnny na minha cama ensanguentado, em cima dele está Lu, de calcinha, gritando com uma faca na mão, eu fecho a porta e me afasto, a porta não tem chave. O cachorro também não está muito certo, está caído, parece morto há vários dias, realmente apodrecido, ontem mesmo estava vivo. É por isso que fedia carniça. O cachorro fedia carniça. Vou andando rápido em direção à entrada, pelo longo corredor. Escuto a porta da casa dos fundos abrindo. Começo a correr. A porta da frente está trancada e minha chave da entrada ficou na mesa do quarto. Jogo a minha mala pelo muro e pulo o portão. Começo a correr. Continuo correndo. Todas as minhas coisas ficaram nessa casa. Minha roupa está limpa. Minha mão está limpa. Eu imaginei aquele sangue? Vou embora. Penso em falar com a polícia. Volto lá no dia seguinte sozinho. Não vou a polícia porque não vão acreditar em mim. Preciso pegar o resto de minhas malas. Quem atende é o Marcos. Diz que nunca me viu antes e fecha a porta. Até hoje não sei direito o que aconteceu naquela república, será que eu tive um surto psicótico?

sábado, 5 de janeiro de 2013

O Nadador e o Lutador - baseado em The Fox and The Hound de Daniel P. Mannix e inspirado por Charles Bukowski


I

Não sei direito por onde começar minha história, acho que ninguém sabe. Minha mãe me contou que antes de mim ela era bem sozinha. Eu também cresci sozinho. O bairro onde eu vivia não tinha gente da minha idade. Cresci vendo dois garotos mais velhos batendo em um outro da casa ao lado. Eram os únicos garotos da região. Nunca conversaram comigo, sempre me mandavam embora. A mãe deles, todos chamavam de Mãe Vivi, estava sempre pintada e com muitas jóias. Minha mãe nunca se pintou e tinha as unhas curtas. Ela parecia incomodada quando tinha que lidar com a Mãe Vivi. Mãe Vivi sempre ficava feliz ao me ver. Nunca entendi. Nunca me contaram quem era ela. Fui crescendo assim, vendo os garotos mais velhos brigando. Sendo chutado. Nunca tive amigos na escola. Quando eu estava com uns 14 anos apareceu um menino novo na rua. Era meu vizinho. Ele, ao contrário de mim, não tinha mãe, só um pai. Tinha um irmão também. Uma vez ele veio falar comigo.
-Oi, o que você esta fazendo?
-Não sei.
-Quer fazer alguma coisa?
-Sim.
-Qual é seu nome?
-Bruno.
-O meu é Felipe.
Depois desse dia passamos a brincar juntos. Ele sempre tinha que voltar mais cedo. Minha mãe nunca ligou, ela sempre trabalhou. Um dia estavamos cansados de brincar pelo bairro e Felipe disse que seu pai não estava em casa. Fomos até lá. Ficamos no quarto dele. Quando anoiteceu voltei pra casa. No outro dia ele dormiu na minha casa. Também teve que ir embora mais cedo, quando ficou de noite. Minha mãe ficou feliz por eu ter um amigo. Fizemos isso por um bom tempo. Era legal ter alguém pra brincar. Um dia estava dormindo na casa dele e o pai dele apareceu. Bateu na porta do quarto. Parecia irritado.
-Que porra é essa? Viado do caralho. Vou te matar seu filho da puta, eu sabia!
O pai e o irmão bateram no Felipe, me puxaram e eu não sabia o que fazer. O pai dele pediu que o irmão me segurasse. Consegui me soltar. Ficaram gritando que eu ia morrer. Consegui fugir e sai correndo. Voltei pra casa e chorei.
Mãe Vivi olhava tudo pela janela. Ela sabia o que estava acontecendo. Viveu muito. Ela conhece coisas. Sabia mais que os próprios garotos. Os garotos nem tinham idéia. Ninguém explicou pra eles o que era certo e o que era errado. –Deus, não sei por que o mundo tem que interferir, seria melhor que os deixassem sorrir. Pensava sozinha em seu quarto. -Quem sai do convencional já não é mais normal... Não sabem talvez que o mundo pertence a vocês. Mãe Vivi sabia das coisas. É por isso que tinha dinheiro.
No mesmo dia o pai de Felipe bateu na porta de casa. Queria falar com a minha mãe. O irmão de Felipe estava lá também e me fazia sinais de ameaça.
–Seu filho estava la em casa fazendo SABE O QUE? SABE QUE PORRA ELE FEZ? SABE O QUE ELES FICAM FAZENDO ENQUANTO A GENTE TRABALHA? SEU MARIDO SABE?
A mãe de Bruno não sabia. A mãe de Bruno não tinha marido.Não tinha idéia de quem era aquele sujeito, porque ele estava gritando ou o que deveria fazer. Mandou Bruno entrar no quarto... Fingiu estar furiosa porque é isso que mães fazem nessa situação ou seria melhor ficar chocada? Márcia não sabia o que fazer. Estava adorando a situação. Bruno não conseguiu mais ouvir a conversa. Agora a mãe de Bruno sabia o que tinha acontecido e lembrou que os pais dela disseram que isso está errado. Então isso estava errado. Deixou Bruno de castigo mas nunca explicou os motivos.  Bruno não entendeu.

II

No dia seguinte Felipe foi obrigado a fazer as malas. Não sabia porque estavam todos tão irritados com ele. Ninguém explicou. Felipe não entendeu. Entraram no carro. Foram embora. Bruno viu tudo pela janela. Eram vizinhos. Felipe também viu Bruno, tentou acenar. Levou um tapa de seu irmão. Bruno estava sozinho novamente. Não estava mais de castigo mas agora estava sozinho. Passou em frente a casa de Felipe e viu tudo apagado. Mãe Vivi estava passando na rua. Casaco de pele e jóias. Maquiada. Bebia uma garrafa de algum tipo de refrigerante amarelado sem gás chamado Whisky. –Não beba. Beber faz mal. Continuou bebendo. Felipe vai voltar, ela contou. Disse a ela que continuariamos sendo amigos para sempre. Ela riu e disse que ele voltaria diferente. Eu disse que isso não aconteceria, que ele nunca iria mudar. –Espero que esteja certo mas, querido, para sempre é muito tempo e o tempo tem um jeito de mudar as coisas. –Quando Felipe voltar ele vai ser outra pessoa, vão ensinar pra ele como ele tem que ser.
O tempo passou, minha mãe me colocou no clube de natação. Eu me esforçava mas nunca fui o melhor. Estava crescendo. Diziam na escola que eu era bonito. Eu tinha um corpo “bom” também. Os garotos mais velhos tiravam onda comigo, acho que eu tinha roupas bonitas também, mas nunca me bateram, como faziam com o Jimmy. Eu era forte. Mãe Vivi sempre me elogiava. Essa mulher nunca ficava velha. Era sempre velha mas nunca ficava velha. Devia ser a máscara de puta que ela desenhava na propria cara. Agora eu estava com 16 anos. Os garotos mais velhos continuavam sendo os garotos mais velhos. Continuavam batendo em Jimmy, o outro garoto. Agora sei quem é Jimmy. Ele é rico. Ninguém gosta dele porque ele é rico. Ele é viado também, dizem. “Ele é viado”. Ser viado deve ser profissão porque falam como se fosse alguma coisa. É como puta. É como nadador, que é o que eu sou, ou funcionária pública, que é o que minha mãe é. São coisas que as pessoas fazem por algum motivo e alguém vai gostar ou vai te odiar por isso. Um dia eu estava voltando pra casa e vi que as luzes da casa de Felipe estavam ligadas denovo. Mãe Vivi estava comigo, de passagem na rua. Olha Mãe Vivi, acho que o Felipe voltou. –Porra, ele ta enorme!
-hahahaha e olhe só o jeito dele, fiquei sabendo que ele faz algum tipo de luta agora.
-Eu sei Mãe Vivi, ele ta diferente.
-Tem razão, e você faz natação, não vai ter o que conversar com ele.
-Bah, isso não faz diferença. Ele vai ficar feliz em me ver.
-Olha querido, não exagere suas esperanças.
-Não se preocupe, eu terei cuidado, vou lá falar com ele quando ele estiver sozinho. Vou lá à tarde, quando seu pai e seu irmão estão fora.
       Felipe. Brincavamos juntos antes. Um dia tentaram me bater por causa disso. Acho que a gente era “viado” naquela época. Jimmy, o viado, era realmente rico. Um dia ouvi os garotos mais velhos reclamando que ele tinha conforto enquanto eles eram uns fodidos. Eu também tinha conforto, mas não era rico. Não era viado também. Nunca gostei de pintos. Nunca pensei em pintos.
Um dia eu passava pela rua e encontrei Felipe arrumando alguma coisa em seu quintal. Ele não falou comigo mas eu tinha certeza que era ele. Acenei. – Sou eu, Bruno. Ele veio falar comigo. –Eu sabia que era você Bruno. Vi você chegando.  Poxa, você cresceu pra caralho! Você também cresceu, respondi. –Vi que você voltou com seu pai e seu irmão.
-É bom ver você Bruno.... Por alguns minutos ambos se olharam, queriam se abraçar mas não sabiam como.
-Mas sabe, não é bom você vir até aqui. Vai acabar ferrando a gente.
-Escuta, só queria te ver. Nós ainda somos amigos, não somos?
-Bruno, aqueles dias acabaram. Sou diferente agora. É melhor você ir embora antes que meu irmão te veja.
-Não tenho medo do seu irmão.
-Bruno, eu falo sério.
Antes que Felipe terminasse a frase, Bruno se aproxima e fica com o rosto bem próximo, quase colado. –Você não quer que eu vá embora. Faz 4 anos que não nos vemos. Felipe rouba um beijo. Bruno rouba um beijo. Não sabem porque fizeram isso. Deu vontade. O desejo não tem razão.
A porta da casa se abre e sai o irmão de Felipe. –Pai, pega a porra da arma. O pai de Felipe sai da casa com uma arma em mãos. –Eu sabia que isso ia acontecer denovo, vai ser a última vez. –Felipe, vai ficar ai parado? Você não é viado também né? Ta apaixonado? Você tem que ensinar uma lição pra esse muleque te deixar em paz!
Começo a fugir, saio correndo, não é questão de covardia, é alguém nada a ver gritando com uma arma. É você e um doido com uma arma. Consigo me esconder e ouço os dois idiotas gritando e correndo atrás de mim. Felipe me encontra. –Não quero te ver morto. Vai embora!
Eu saio correndo mas o irmão do Felipe aparece em minha direção, corro pra rua e vem um carro. Quando eu olho pra trás vejo o irmão de felipe sangrando na rua. Puta que o pariu. Vou matar você, grita Felipe. Puta que o pariu. Minha mãe chega em casa e percebe que eu não estava. Viu pela janela que eu conversava com o Felipe. Viu que nos beijamos. Viu que o irmão dele saiu. Viu que o irmão dele entrou. Viu que o irmão dele saiu com o pai dele e uma arma. Deixou as sacolas de compra cairem no chão e saiu. Onde estão todos? Que barulho foi esse? Viu o acidente. Eu não sei mas não parei de correr. Estava muito longe. Fiquei alguns dias na rua. Tive medo de voltar porque Felipe também queria me matar. Encontrei outros meninos na rua. Faziam programa. Me deram algo pra comer e beber. Me deram algo pra fumar. Me deram uma bala. Me deram um negócio pra cheirar também. Achei um lugar pra ficar. Outro garoto disse que era o ponto dele e me mandou embora. Um velho, gordo, nojento, disse que estava me observando. Disse que eu poderia ficar na casa dele por um tempo se eu quisesse. Eu fui. Achei gentil. Eu precisava de um lugar. Eu precisava esperar pelo menos essa noite passar. Eu dormi na casa desse porco. Acordei com ele se esfregando.
-O QUE É QUE HOUVE? ONDE EU TO!? PORRA.
Voltei pra casa, já era dia e as coisas estavam mais certas.

III

Mãe Vivi chegou em uma de suas filhas e disse que precisava de um favor. As pessoas sempre deviam favores a Mãe Vivi. Disse que tinha um sobrinho pra chegar e que precisava de um favor. Amber adorava Mãe Vivi.
-Querida, meu sobrinho vai se mudar pra cá e eu preciso que você o conheça. Ele é jovem, da sua idade e gostoso.
-Gostoso?
-Sim, ele se chama Bruno. Você vai gostar, é seu tipo.

IV

Mãe Vivi e minha mãe pareciam preocupadas. Minha mãe disse para que eu fizesse as malas. Disse que iam me matar naquele bairro. Disse que me enviaria dinheiro e eu viveria em outro lugar. Me levou de carro até um hotel, do outro lado da cidade. Mãe Vivi era a proprietária. Eu não sabia, mas Márcia, minha mãe, estava chorando. Chorou o dia inteiro, nunca na minha frente. Me deixou uma carta. “Parece que foi ontem que lhe encontrei, você me olhou e eu lhe amparei. Da sua tristeza nossa alegria nasceu. Da sua presença nova vida me deu. Eu me lembro de como nós brincamos. Também me lembro de quando chovia, do calor da chama que nos aquecia. Agora vejo que ficamos sós. É triste a despedida. Adeus parece o fim. Mas guardarei pra sempre você em meu coração”. Mãe Vivi me contou que é minha madrinha. Também disse que eu apareci em seu hotel mas não podia ficar lá porque lá nenhuma menina pode Ter filhos e foi assim que ela conheceu minha mãe, precisa de um lugar para o bebê. Estava com medo, estava sozinho.
O hotel era bem legal. Haviam muitas meninas por lá e a noite muitas pessoas apareceram e começaram a beber. Era bem bacana. Por algum motivo nenhuma das moradoras falavam comigo e eu também não me interessava por nenhuma delas. Haviam alguns homens mas também não perderia meu tempo com eles.
-Amber, querida, aquele é o Bruno, disse Mamãe Vivi.
-Aaah, ele parece tão... não sei... desanimado... Mamãe Vivi.
-Ora, ele não tem culpa querida, ele foi jogado aqui e está sem ninguém no mundo.
-Talvez eu possa fazer alguma coisa, entende? Anima-lo?
-Querida, acaba de dizer as palavras mágicas! Era isso que eu pensava.  Então Mãe Vivi cochicha algo no ouvido de Amber. Amber ri sem parar.
-O QUE? Mas Mamãe Vivi, eu não sei....
-Querida, não se arrume, você está uma beleza.
Mãe Vivi vem conversar comigo. – A noite passada foi bem ruim para você, não foi? Anime-se e olhe em volta! Amber, querida, venha aqui, preciso te apresentar meu afilhado.
Olhei. Veio uma garota. Tinha a minha idade no rosto, mas me disse que estava com 23 anos. Eu tinha 16 ainda. Era muito bonita. Era diferente. Era meu tipo.
-Oi, meu nome é Amber.
-Bruno.
-Acho que é um bonito nome... Amber riu. -Bruno.... Suspirou. -Bruno, aqui no bar tem várias bebidas, será que você poderia pegar uma?
–Uma o que?
-Uma bebida.
Algo nela combinava comigo. Eu não sou viado. Não gosto de pinto, mas também não gosto de xoxota. Mas ela sabia o que fazer pra me excitar. Acho que tinhamos química. Mãe Vivi nos deu um quarto. –Vocês podem viver aqui, queridos. Agradeci. Tive que parar a escola desde que tentaram me assassinar por eu ser, ironicamente, viado. Não tinha mais o que fazer. Tinha dinheiro, comida e um colchão de água. Agora tinha Amber também. Amber quer filhos.
V

-Felipe, você tem que matar aquele viado, olha o que ele fez com seu irmão. Ele mora naquela porra daquele motel cheio de puta. Eu descobri.
-Como?
-A gente vai lá hoje de manhã. A gente põe gasolina no quarto e joga fogo.

VI

Estava dormindo com Amber e quando acordei o quarto estava pegando fogo. Tinha um velho doido gritando. Felipe estava lá também. Estava gritando também. Saímos do quarto correndo.
-Amber, nao dá pra explicar mas a gente tem que correr, pra caralho.
-Tá.
O velho gritando era o pai de Felipe. Atirou na gente. Puta que o pariu. –Amber, se esconde, liga pra polícia. Continuei correndo e eles me seguiram. Felipe me alcançou. A gente brigou mas ele é muito forte. Ele podia me arregaçar inteiro. Não sei se ele estava brigando de verdade. Eu tinha um corpo bom. Talvez ele estivesse cansado porque não ganhou de mim. Empatamos. Consegui fugir. Felipe estava chorando. O pai dele apareceu, estava atrás, correndo. Subi o morro, ele não ia ter fôlego pra me alcançar. Ele caiu. Eu ri. Fui subindo e Felipe estava atrás, acho que pensou que eu tinha feito aquilo ao pai dele. Ele pisou errado e torceu o pé. Voltei pra ajuda-lo. Nâo queria que ele caisse morro abaixo e quebrasse o pescoço. Porque dai além de viado e afilhado de cafetina eu seria assassino. Fui ajudar, nessas horas é sempre o pior que acontece. Ele estava do lado de um buraco. Ele podia ter morrido, pra valer. Podia ter caído na merda do buraco ou escorregado da merda do morro. Ele é pesado. Eu sou forte mas ele é pesado. Tirei ele de perto do buraco e eu caí na porra do buraco. Puta que o pariu. O pai dele ta chegando perto. Puta que o pariu. O pai dele vai me dar um tiro sei la por qual motivo. Vou aparecer na reportagem como o viado da cidade que foi assassinado por “hate crime” dentro de um buraco. Puta que o pariu. Felipe me tirou do buraco. O pai dele apareceu. Vou levar um tiro. Felipe me abraçou. Nós dois vamos levar um tiro. Puta que o pariu Felipe. Precisa mesmo me abraçar em frente a um doido homofóbico com uma arma? Pensei. O pai dele começou a chorar. Não levamos o tiro.
    No final as coisas foram acontecendo. Perdi um ano do colégio mas ganhei uma vida. Conheci pessoas. Sobrevivi. A gente não tem idéia do número de situações perigosas que a gente sobrevive sem saber. Sempre tem um doido que vai querer te matar por nenhuma razão. Jimmy, o viado, virou mulher. Apareceu na rua com peitos novos. Os garotos mais velhos ficaram chocados. Ele ta muito gostosa. Mulher nenhuma é assim. Ele é rico, pagou plasticas. Amber quer filhos.

Inspirado no livro de Daniel P. Mannix, nos dialógos da Disney e nas histórias de Charles Bukowski.

A história de um preconceito.